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"A
lei de propriedade intelectual contemporânea é construída
em torno da noção do autor como um indivíduo,
criador original e solitário, e é para este quadro que
suas proteções são concebidas. O "autor",
neste sentido moderno, é o criador de obras de arte únicas,
cuja originalidade garante sua proteção sob as leis
de propriedade intelectual -- particularmente as leis de "copyright"
e de "direitos de autoria". Esta noção, no
entanto, não é nem natural nem inevitável. Ao
contrário, surgiu em um tempo e lugar específicos --
a Europoa do século 18 -- em conexão com um formato
particular de tecnologia da informação -- a imprensa.
Apesar disso, tal noção continua sendo o paradigma dominante
em nossa era global, multicultural, pós-colonial e eletrônica
-- um paradigma que vai além do copyright para influenciar
todos os tipos de direitos de propriedade intelectual. Devemos reconhecer
o aspecto político presente nesta visão de "autoria":
como entendida atualmente, trata-se de um portal através do
qual deve-se passar de forma a garantir direitos de propriedade, um
portal que está fechado para um número disproporcional
de modos de produção não-ocidentais, tradicionais,
colaborativos e folclóricos."
The
Bellagio Declaration (1993 Rockefeller
Conference)
De acordo
com Boyle (in "The
Need for Digital Ecology"), existe hoje a necessidade de
um ativismo político sobre a questão da propriedade intelectual,
de forma a combater as tendências estruturais do modelo estabelecido
para a sobre-proteção dos direitos autorais. O fato é
que o tema não tem um lugar correspondente no debate popular
ou no entendimento político, e neste contexto é que surge
a Ecologia Digital, exercitando uma analogia com o movimento
ambientalista de forma a demonstrar como concebermos uma "economia
política da propriedade intelectual". Sob o conceito
do "ambientalismo", diferentes grupos com diferentes interesses
(algumas vezes contraditórios) puderam se organizar em torno
de uma ampla coalizão política. É exatamente isto
que precisamos agora no tema da mídia digital - uma abordagem
política que possa efetivamente defender o domínio público
e as liberdades do ambiente digital.
"Penso
que o grande problema é a cegueira múltipla envolvida
na questão. Primeiramente, se você aborda alguns dos
assuntos relativos a "liberdade de expressão" e os
re-descreve como assuntos de "propriedade", as restrições
de expressão ficam invisíveis.
Então, faz-se com que grande parte da regulação
se dissolva no nível técnico, de forma que você
não se dê conta que está sendo regulado. Resulta
que você simplesmente não pode fazer o que você
gostaria de fazer porque o aparelho de DVD não irá permitir,
ou seu computador não irá permitir, e seria um crime
(literalmente) tentar mudar as configurações. Novamente,
a restrição está invisível.
E por último existe a estratégia de utilizar instâncias
privadas para regular. O Estado pode tornar iniciativas privadas --
universidades ou provedores de serviços de Interent -- responsáveis
pela implementação de políticas de restrição.
Novamente, o papel do Estado e as escolhas políticas envolvidas
são bem menos óbvias, mais difíceis de serem
criticadas. Estas são três formas bem efetivas de regular
o ciberespaço.
(Para ilustrar este ponto, veja
aqui)
O que estamos tentando fazer é criar uma nova moldura
para que o mundo possa pensar sobre propriedade intelectual -- ou
seja, criar uma noção do domínio público,
da mesma forma como os ambientalistas "criaram" o ambiente.
Para tornar visível o invisível."
A
Politics of Intellectual Property: Environmentalism For the Net?
THE
SECOND ENCLOSURE MOVEMENT AND THE CONSTRUCTION OF THE PUBLIC DOMAIN
Num sentido
mais amplo, não é somente a palavra "ambiente"
que cataliza a atenção da sociedade, mas sim duas idéias
importantes que permeiam o movimento ambientalista. Primeiro a idéia
de ecologia -- as interconexões frágeis, complexas e imprevisíveis
entre os sistemas vivos. E em segundo lugar a idéia do "estado
de bem-estar social" (welfare economics) -- que teoriza sobre as
formas nas quais os mercados podem falhar em fazer com que as atividades
produtivas internalizem seus custos totais, principalmente os custos
relativos a prejuízos ambientais.
Esta nova
noção de domínio público pode levar a um
nível mais alto de abstração um conjunto de lutas
individuais. Da mesma forma como o "caçador de patos"
pode encontrar uma causa comum com o "observador de pássaros"
sob a bandeira do ambientalismo, o conceito de Ecologia
Digital pode unir interesses de grupos hoje envolvidos em lutas
individuais desprovidas de uma noção do contexto mais
amplo. Esta idéia apresenta inúmeras soluções
para problemas de ação coletiva, incluindo a criação
de organizações especializadas cuja capacidade técnica
e influência política permitirá uma melhor articulação
de interesses difusos pertencentes a um público mais amplo.
Existirá
público mais amplo que o conjunto de usuários da rede
nossa de cada dia? Viva a Ecologia
Digital!
José
Murilo Junior
(josemurilo@ecologiadigital.net)
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