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vozes da revolução digital







Abrindo o Código

da Democracia

As estruturas políticas precisam mudar. Estas mudanças irão emergir das pessoas agindo e comunicando no presente, e não falando sobre um futuro de ficção.

 


Dezembro, 2003
DEMOS - People Changing Politics
Open Access licence terms

Tradução: Guilherme Barcellos

Do mesmo autor:
O Blog

e
O Site
e
Coluna sobre Wireless (The Feature)
e
Versão Online
de seu curso
na NYU (Theoretical Perspectives)

Introdução
(estaremos publicando os demais capítulos em breve)

O aparecimento do espaço interativo pode oferecer um novo modelo de cooperação. Embora tenha desapontado algumas pessoas na indústria tecnológica, a ascensão da mídia interativa, o nascimento de um novo meio, a batalha para controlá-lo e a derrota dos primeiros vitoriosos neste campo, nos ensinou muito sobre a relação entre as idéias e o meio pelo qual são disseminadas. Aqueles que testemunharam, ou melhor, participaram do desenvolvimento do espaço interativo têm um entendimento bastante novo sobre como as narrativas culturais são desenvolvidas, monopolizadas e desafiadas. E esse conhecimento se estende, por alegoria e experiência, a áreas muito além da cultura digital, aos mais amplos desafios do nosso tempo.

Enquanto o mundo confronta o impacto do globalismo, as novas e revitalizadas ameaças do fundamentalismo e o aparecimento de sistemas de valores aparentemente irreconciliáveis geram um nova razão para acreditar que viver interdependentemente não é apenas possível, mas preferível ao individualismo competitivo, etnocentrismo, nacionalismo e particularismo que têm caracterizado tanto o pensamento e a cultura do final do século XX.

Os valores engendrados por nossa novíssima cultura interligada podem, de fato, ajudar um mundo que se debate com o impacto do globalismo, a atração do fundamentalismo e a oposição de sistemas de valores conflitantes. Graças ao papel verdadeiro e alegórico das tecnologias interativas em nossa vidas e trabalho, podemos agora entender muitas construções sociais e políticas dentro de novos contextos. Podemos começar conversas do tipo que mudam a relação entre indivíduos, partidos, credos e nações entre si e com o resto do mundo. Essas tecnologias de conversação interativa poderiam até nos ajudar a entender autonomia como um fenômeno coletivo, um estado compartilhado que surge espontaneamente e bem naturalmente quando as pessoas têm a permissão de participar ativamente para o benefício de ambos.

O surgimento da internet como uma comunidade auto organizável, a sua subseqüente eleição como segunda opção por empresários, o que resultou no colapso da pirâmide dot.com e o mais recente ressurgimento auto-consciente dos mais participativos fóruns do meio interativo, servem de casos para o estudo das políticas do renascimento. A batalha pelo controle das novas e pouco compreendidas tecnologias da comunicação tornou transparentes várias agendas implícitas em nossas narrativas políticas e culturais. Enquanto isso, as próprias tecnologias possibilitam as pessoas participarem da criação de novas narrativas. Portanto, em uma era em que as perversões crassas do populismo e chamadas exageradas do nacionalismo ameaçam as premissas da democracia representacional e o livre discurso, as tecnologias interativas nos oferecem um raio de esperança de um espírito renovado de engajamento civil genuíno.

A própria sobrevivência da democracia como uma realidade funcional pode depender de nossa aceitação, como indivíduos, dos papéis adultos de conceber e administrar o formato e direção da sociedade. E é online que podemos ter os melhores ensaios para estes papéis.

Resumindo, o espaço interativo oferece uma nova maneira de entender a própria civilização, e várias novas razões para participar da realidade civil mais completamente apesar do que geralmente é percebido (ou ensinado) sobre o comportamento cooperativo estar associado a muitos riscos e concessões. Tristemente, graças à proliferação da mídia e propaganda elitista tradicional, tanto os marqueteiros quanto os políticos têm sucedido em seus esforços de colocar vizinho contra vizinho, cidade contra cidade e nação contra nação. Enquanto tais estratégias vendem mais produtos, ganham mais votos e inspiram um sentimento de salvação exclusiva (nós não podemos dividir, participar ou, Deus nos livre, colaborar com pessoas que fomos ensinados a não confiar), elas põem em perigo o que restou da sociedade civil. Também ameaçam a última pequena esperança de impedir milhões de mortes no próximo conjunto de guerras por óleo justificadas pela fé.

Ao passo que a mídia tradicional, particularmente no Estados Unidos, se torna cada vez mais centralizada e voltada para o lucro, sua habilidade de oferecer uma multiplicidade de perspectivas em assuntos de importância global é diminuída. Na América, a divulgação da guerra no Iraque significou a venda da guerra no Iraque. Cada um dos conglomerados de mídia vendeu a narrativa cuidadosamente cozida pelo regime vigente, isso é tão claro que quando a guerra realmente começou, uma pesquisa do Knight Ridder mostrou que metade dos americanos acreditava que iraquianos tinham participado diretamente como seqüestradores no 11 de setembro de 2001. Quanto mais os repórteres eram absorvidos nas tropas da coalizão, tanto mais ficavam absorvidos na linguagem e prioridades do Pentágono. Mortes de soldados iraquianos eram geralmente mencionadas como ‘abrandamento das posições inimigas’, bombardeios como ‘oportunidades de alvo’ e mortes de civis como o agora risível ‘dano colateral’. Este foi o motivo propagandista para envolver os repórteres desde o começo: quando as vidas dos jornalistas dependem do sucesso das tropas com quem viajam, sua cobertura se torna distorcida.

Mas isto não parou muitos jornalistas de criar seus weblogs, ou blogs: diários da Internet através dos quais eles podiam compartilhar suas respostas mais puras às questões maiores da guerra. As entradas pessoais dos jornalistas deram uma gama muito maior de opiniões sobre as estratégias e motivos de todos os lados do conflito do que estava disponível, particularmente aos americanos, na televisão e rádio.

Para maior variedade de perspectivas, os usuários da Internet estavam livres para se relacionar diretamente com o suposto inimigo, tal é o caso do blog Dear Raed, escrito por alguém que a maioria dos especialistas em Internet viu como sendo uma pessoa real morando em Bagdá, falando de sua oposição à guerra. Este jornal diário de altas inspirações para a paz e uma vida melhor em Bagdá se tornou uma das fontes mais lidas de informações e opiniões sobre a guerra na Web.

Claramente, o sucesso de sites como o Dear Raed floresce de nossa necessidade cada vez maior nessa sociedade complexa de uma diversidade de pontos de vista sobre nossos assuntos mais presentes, particularmente quando confrontados com a mídia dominante que parece estar convergindo em uma agenda única, corporativa e aprovada pelo governo. Essas fontes de informação alternativas estão ganhando mais atenção e credibilidade do que talvez mereçam, mas isto é apenas porque elas são a única fonte disponível de pensamento oposicionista ou mesmo independente que existe. Aqueles que escolhem compor e disseminar sistemas de valores alternativos podem estar trabalhando contra as atuais e cada vez mais concretas mitologias do mercado, igreja e estado, mas elas na verdade detém as chaves para o renascimento das três instituições em um contexto totalmente novo.

A revolução das comunicações talvez não tenha trazido nem a salvação para o mundo de trocas de valores nem tampouco a infra-estrutura para um novo sistema de distribuição de recursos globais. Apesar de possivelmente já estar exaurida uma direção para a implementação da nova tecnologia de mídia, outras tantas possibilidades nos convidam de novo. Talvez não nos dêem um esquema para negócios infalíveis ou soluções de marketing, mas o nascimento da mídia interativa nos dá começos para novas metáforas para cooperação, nova esperança no poder da atividade conectada em rede e uma nova evidência de nossa capacidade em participar ativamente da autoria do nosso destino coletivo.

Douglas Rushkoff