Introdução
(estaremos publicando os demais capítulos em breve)
O
aparecimento do espaço interativo pode oferecer
um novo modelo de cooperação. Embora tenha desapontado
algumas pessoas na indústria tecnológica, a ascensão
da mídia interativa, o nascimento de um novo meio, a batalha
para controlá-lo e a derrota dos primeiros vitoriosos neste campo,
nos ensinou muito sobre a relação entre as idéias
e o meio pelo qual são disseminadas. Aqueles que testemunharam,
ou melhor, participaram do desenvolvimento do espaço interativo
têm um entendimento bastante novo sobre como as narrativas culturais
são desenvolvidas, monopolizadas e desafiadas. E esse conhecimento
se estende, por alegoria e experiência, a áreas muito além
da cultura digital, aos mais amplos desafios do nosso tempo.
Enquanto o mundo
confronta o impacto do globalismo, as novas e revitalizadas ameaças
do fundamentalismo e o aparecimento de sistemas de valores aparentemente
irreconciliáveis geram um nova razão para acreditar que
viver interdependentemente não é apenas possível,
mas preferível ao individualismo competitivo, etnocentrismo,
nacionalismo e particularismo que têm caracterizado tanto o pensamento
e a cultura do final do século XX.
Os valores engendrados
por nossa novíssima cultura interligada podem, de fato, ajudar
um mundo que se debate com o impacto do globalismo, a atração
do fundamentalismo e a oposição de sistemas de valores
conflitantes. Graças ao papel verdadeiro e alegórico das
tecnologias interativas em nossa vidas e trabalho, podemos agora entender
muitas construções sociais e políticas dentro de
novos contextos. Podemos começar conversas do tipo que mudam
a relação entre indivíduos, partidos, credos e
nações entre si e com o resto do mundo. Essas tecnologias
de conversação interativa poderiam até nos ajudar
a entender autonomia como um fenômeno coletivo, um estado compartilhado
que surge espontaneamente e bem naturalmente quando as pessoas têm
a permissão de participar ativamente para o benefício
de ambos.
O surgimento da
internet como uma comunidade auto organizável, a sua subseqüente
eleição como segunda opção por empresários,
o que resultou no colapso da pirâmide dot.com e o mais recente
ressurgimento auto-consciente dos mais participativos fóruns
do meio interativo, servem de casos para o estudo das políticas
do renascimento. A batalha pelo controle das novas e pouco compreendidas
tecnologias da comunicação tornou transparentes várias
agendas implícitas em nossas narrativas políticas e culturais.
Enquanto isso, as próprias tecnologias possibilitam as pessoas
participarem da criação de novas narrativas. Portanto,
em uma era em que as perversões crassas do populismo e chamadas
exageradas do nacionalismo ameaçam as premissas da democracia
representacional e o livre discurso, as tecnologias interativas nos
oferecem um raio de esperança de um espírito renovado
de engajamento civil genuíno.
A própria
sobrevivência da democracia como uma realidade funcional pode
depender de nossa aceitação, como indivíduos, dos
papéis adultos de conceber e administrar o formato e direção
da sociedade. E é online que podemos ter os melhores ensaios
para estes papéis.
Resumindo, o espaço
interativo oferece uma nova maneira de entender a própria civilização,
e várias novas razões para participar da realidade civil
mais completamente apesar do que geralmente é percebido (ou ensinado)
sobre o comportamento cooperativo estar associado a muitos riscos e
concessões. Tristemente, graças à proliferação
da mídia e propaganda elitista tradicional, tanto os marqueteiros
quanto os políticos têm sucedido em seus esforços
de colocar vizinho contra vizinho, cidade contra cidade e nação
contra nação. Enquanto tais estratégias vendem
mais produtos, ganham mais votos e inspiram um sentimento de salvação
exclusiva (nós não podemos dividir, participar ou, Deus
nos livre, colaborar com pessoas que fomos ensinados a não confiar),
elas põem em perigo o que restou da sociedade civil. Também
ameaçam a última pequena esperança de impedir milhões
de mortes no próximo conjunto de guerras por óleo justificadas
pela fé.
Ao passo que a
mídia tradicional, particularmente no Estados Unidos, se torna
cada vez mais centralizada e voltada para o lucro, sua habilidade de
oferecer uma multiplicidade de perspectivas em assuntos de importância
global é diminuída. Na América, a divulgação
da guerra no Iraque significou a venda da guerra no Iraque. Cada um
dos conglomerados de mídia vendeu a narrativa cuidadosamente
cozida pelo regime vigente, isso é tão claro que quando
a guerra realmente começou, uma pesquisa do Knight Ridder mostrou
que metade dos americanos acreditava que iraquianos tinham participado
diretamente como seqüestradores no 11 de setembro de 2001. Quanto
mais os repórteres eram absorvidos nas tropas da coalizão,
tanto mais ficavam absorvidos na linguagem e prioridades do Pentágono.
Mortes de soldados iraquianos eram geralmente mencionadas como ‘abrandamento
das posições inimigas’, bombardeios como ‘oportunidades
de alvo’ e mortes de civis como o agora risível ‘dano
colateral’. Este foi o motivo propagandista para envolver os repórteres
desde o começo: quando as vidas dos jornalistas dependem do sucesso
das tropas com quem viajam, sua cobertura se torna distorcida.
Mas isto não
parou muitos jornalistas de criar seus weblogs, ou blogs: diários
da Internet através dos quais eles podiam compartilhar suas respostas
mais puras às questões maiores da guerra. As entradas
pessoais dos jornalistas deram uma gama muito maior de opiniões
sobre as estratégias e motivos de todos os lados do conflito
do que estava disponível, particularmente aos americanos, na
televisão e rádio.
Para maior variedade
de perspectivas, os usuários da Internet estavam livres para
se relacionar diretamente com o suposto inimigo, tal é o caso
do blog Dear Raed, escrito por alguém que a maioria dos especialistas
em Internet viu como sendo uma pessoa real morando em Bagdá,
falando de sua oposição à guerra. Este jornal diário
de altas inspirações para a paz e uma vida melhor em Bagdá
se tornou uma das fontes mais lidas de informações e opiniões
sobre a guerra na Web.
Claramente,
o sucesso de sites como o Dear
Raed floresce de nossa necessidade cada vez maior nessa sociedade
complexa de uma diversidade de pontos de vista sobre nossos assuntos
mais presentes, particularmente quando confrontados com a mídia
dominante que parece estar convergindo em uma agenda única, corporativa
e aprovada pelo governo. Essas fontes de informação alternativas
estão ganhando mais atenção e credibilidade do
que talvez mereçam, mas isto é apenas porque elas são
a única fonte disponível de pensamento oposicionista ou
mesmo independente que existe. Aqueles que escolhem compor e disseminar
sistemas de valores alternativos podem estar trabalhando contra as atuais
e cada vez mais concretas mitologias do mercado, igreja e estado, mas
elas na verdade detém as chaves para o renascimento das três
instituições em um contexto totalmente novo.
A revolução
das comunicações talvez não tenha trazido nem a
salvação para o mundo de trocas de valores nem tampouco
a infra-estrutura para um novo sistema de distribuição
de recursos globais. Apesar de possivelmente já estar exaurida
uma direção para a implementação da nova
tecnologia de mídia, outras tantas possibilidades nos convidam
de novo. Talvez não nos dêem um esquema para negócios
infalíveis ou soluções de marketing, mas o nascimento
da mídia interativa nos dá começos para novas metáforas
para cooperação, nova esperança no poder da atividade
conectada em rede e uma nova evidência de nossa capacidade em
participar ativamente da autoria do nosso destino coletivo.
Douglas
Rushkoff