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vozes da revolução digital

Internet Gratuita
Quem tem razão?

Desde a última postagem vinha eu a pesquisar sobre o imbróglio nebuloso em que se transformou a questão da Internet Gratuita na mídia brasileira. Tudo começou com os ataques explícitos do UOL, que certamente devem ter sido precedidos por algumas pressões endógenas que resultaram na Consulta Pública 147 da Anatel (Proposta de Regulamento para Uso de Serviços e Redes de Telecomunicações no Acesso a Serviços de Internet), a qual já produziu as devidas respostas. A remessa de manifestações sobre a consulta foi tão grande que o prazo de recebimento teve que ser prorrogado para o próximo dia 15, o que mostra como as decisões sobre o tema "acesso à Internet" são importantes e merecem a atenção da sociedade.

O que é interessante observar, conforme destaca Renato Cruz no Estadão (o ótimo diagrama abaixo também é da matéria do Estadão), é que apesar do racha da Abranet (que ainda publica em word na rede!! vai ser anti-ecológico assim...) e da criação do Comitê Nacional de defesa do modelo gratuito, os maiores provedores do Brasil têm operadoras de telecomunicações como acionistas, independente de oferecerem acesso gratuito ou pago. O iG tem a Telemar; o iBest, a Brasil Telecom; o Terra e o iTelefônica, a Telefônica; e o UOL, a Portugal Telecom.

Existe portanto um ponto de convergência: os provedores gratuitos defendem que a Anatel regulamente o compartilhamento de receitas, medida permitida em países como a Inglaterra e a Argentina, e os provedores pagos acreditam que a medida poderia melhorar as condições de mercado de acesso em geral, se a alternativa não ficasse restrita a umas poucas empresas de acesso grátis.

Para a Anatel, o repasse a terceiros da receita de telefonia fixa é proibido por lei. Segundo a visão expressa pelo Superintendente de Universalização da agência, Edmundo Matarazzo, se existe espaço para o repasse o que deveria ocorrer seria a redução da tarifa para o cliente final. Mas até aí nada está sendo feito por parte da agência reguladora para incentivar a democratização do acesso à rede, questão estratégica para o País.

Esta semana o assunto continua quente com movimentações do Comitê e da Abranet. Como ressalta Luiz Egypto no Observatório, "no fundo da questão está o acesso universal e democrático à internet e às suas conhecidas possibilidades de produção e difusão do conhecimento. Na superfície do debate, o tráfego de telefonia e sua tarifação".

Alberto Dines, também no Observatório, levanta aspectos interessantes que explicam porque os veículos de comunicação tem se comportado de forma tão estranha em relação ao assunto. Enquanto a mídia impressa revela-se distante, e por outro lado comprometida com uma das posições (alguns veículos impressos são parceiros dos provedores "tradicionais" de acesso pago), a mídia eletrônica preocupa-se com o avanço das empresas de telecomunicações no mercado de disponibilização conteúdo. Nesse quadro fica clara a posição dos impérios midiáticos em impedir a urgente e necessária democratização do mercado de comunicação.

Nós aqui, partindo de uma visão ecológica digitalmente, sabemos a importância do modelo gratuito neste momento de difusão das possibilidades do ambiente digital. Com base nesta visão, e analisando as posições dos envolvidos, parece difícil neste momento imaginar que o negócio de acesso tenha sentido sem estar associado a uma operadora de telecomunicações, e portanto, a bola está com a Anatel em regulamentar o mercado de forma inteligente, e não movida a pressões. Quanto ao medo pânico da grande mídia em relação à perda de poder, o resultado é esse - desinformação para a sociedade. Como diz o Alberto:

"Indispensável um mínimo de regulamentação – a própria velocidade da tecnologia o impõe. Mas esta regulamentação não pode restringir-se apenas à área da internet e internet grátis deixando-se o resto como está. O sistema informativo brasileiro, como um todo, precisa ser avaliado. Está na hora de examinar em profundidade a questão intocada da "propriedade cruzada" dos meios de comunicação num determinada cidade ou região e seus efeitos perniciosos na diversificação das fontes. A questão da concentração da mídia no país não pode ser segmentada ou enviesada, regulamentando-se um setor e deixando-se os demais na mesma condição em que se encontram há algumas décadas. O debate ora iniciado sobre a internet gratuita em algum momento terá que ser complementado na mesa de negociações. Nenhuma das partes quer perder vantagens. Nem a sociedade."

José Murilo
11/02/2003