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O
mito da interferência no espectro de rádio
David Redd, arquiteto da Internet, explica
como a má ciência criou a indústria televisiva
por
David Weinberger
12/03/2003 in Salon.com
Há
uma razão para nossas televisões terem mais poder de fogo
do que nós, nos borrifando com trilhões de bites enquanto
nós só respondemos com cômicos toques em nossos
controles remotos. Para permitir que os sinais cheguem intactos, o governo
tem que dividir o espectro de freqüências em faixas que depois
licencia a particulares. A (rede de notícias americana) NBC
tem uma licença e você não.
Assim,
a NBC pode mergulhá-lo em "Friends"
seguido por um "Scrubs"
muito especial e você consegue se sentar passivamente em seu sofá.
É uma troca assimétrica que domina nossa cultura, economia
e política--só o rico e famoso pode divulgar suas mensagens--e
tudo baseado no fato que as ondas de rádio no seu indomado hábitat
interferem umas com as outras.
Mas
elas não fazem isso.
"Interferência
é uma metáfora que mascara uma velha limitação
da tecnologia como um fato de natureza". Assim diz David
P. Reed, engenheiro elétrico, cientista da computação
e um dos arquitetos da Internet. Se ele tem razão, então
espectro não é um recurso para ser dividido como ouro
ou parcelado como terra. Não é nenhum conjunto de tubos
com capacidade limitada por suas larguras ou uma estrada aérea
com linhas brancas para manter a ordem.
O
espectro está mais para as cores do arco-íris, inclusive
aquelas que nossos olhos não podem discernir. Reed diz: Não
há nenhuma escassez de espectro mais que há uma escassez
da cor verde. Nós poderíamos ligar imediatamente na Internet
todo o mundo que recebe um sinal de rádio, e eles poderiam bombear
tantos bites quantos jamais desejassem. Sairíamos de uma economia
de escassez digital para uma economia de abundância digital."
Assim
jogue fora o livro de regras sobre o que deve ou não ser regulado.
Repense completamente o papel da FCC
- Federal Communications Commission (Comissão de Comunicações
Federal - a ANATEL
dos EUA) em decidir quem ganha o que. Se Reed tem razão, quase
um século de política governamental sobre como melhor
administrar as ondas de rádio precisa ser reconfigurado, do começo
ao fim.
Espectro
como cor parece uma metáfora desajeitada para pendurar uma mudança
de política tão extensa e com tantas implicações
sociais e econômicas importantes. Mas Reed diz que não
é nenhuma metáfora. Espectro é cor. Literalmente
e honestamente em acordo com a verdade de Feynman
(renomado cientista).
David
Reed é muitas coisas, menos lunático. Ele foi professor
de ciência da computação no MIT
- Massachusetts Institute of Technology, depois o cientista principal
da Software Arts
durante seus dias de VisiCalc, e em seguida o cientista principal da
Lotus durante seus primeiros dias. Mas ele é provavelmente melhor
conhecido como o co-autor do artigo que lhe deu o título de arquiteto
da Internet: End-to-End
Arguments in System Design. (Argumentos Ponta-a-Ponta em Desenho
de Sistemas).
Ou
podemos reconhecê-lo como o autor do que passou a ser conhecido
como a "Lei
de Reed" - o verdadeiro valor
de uma rede não é determinado pelo número de
pontos individuais conectados ("Lei
de Metcalfe") mas pelo maior número de grupos que habilita.
Mas eu tenho que confessar que eu sou parcial quanto a David Reed. Eu
o encontrei pessoalmente há três anos numa conferência
minúscula quando ele me tirou com destreza de um buraco que eu
estava cavando para mim na frente dos meus superiores. Desde então,
eu o vejo mostrar seu ilimitado conhecimento técnico em uma lista
de e-mail e ser pacientemente útil como fonte para vários
artigos nos quais eu trabalhei.
Não
precisa muito para conseguir que o Reed exiba suas fortes e bem articuladas
convicções políticas e sociais. Mas sobre espectro,
ele também fala apaixonadamente porém mais como um cientista.
"Fótons, sejam eles de luz, rádio, ou raio gama,
simplesmente não interferem com os outros" ele explica.
" Eles atravessam uns aos outros".
Reed
usa o exemplo de uma máquina fotográfica de caixa, ou
câmera escura: se um quarto está fechado hermeticamente
contra luz com exceção de um pequeno furo, uma imagem
do exterior será projetada contra a parede oposta. "Se fótons
interferissem com os outros ao se apertarem para passar por aquele buraco
minúsculo, nós não teríamos uma imagem clara
na parede de trás", Reed diz.
Se
você reclama que é completamente contra a lógica
uma onda se apertar por um furo e "se reorganizar" do outro
lado, Reed balança a cabeça alegremente e responde: "se
fótons podem passar um pelo outro, então eles de fato
não ocupam nenhum espaço, já que a definição
de 'ocupar' é 'deslocar'. Assim, sim, é contra a lógica.
É mecânica quântica".
"Rádio
e luz são a mesma coisa e seguem as mesmas leis", Reed explica.
"Eles são distintos pelo que nós chamamos freqüência".
Freqüência, ele ensina, é somente o nível de
energia dos fótons. O olho humano detecta freqüências
diferentes como cores diferentes. Assim, autorizando freqüências
às emissoras de rádio e televisão, nós estamos
literalmente regulando cores. Crayola
pode possuir os nomes das cores que inventou e Pantone
pode possuir os números pelos quais os desenhistas digitais se
referem a cores, mas só o FCC
pode lhe dar uma licença exclusiva para uma determinada cor.
Reed
prefere falar sobre "cor RF" (radio frequency - freqüência
de rádio) porque a alternativa habitual é pensar em espectro
como uma representação de propriedade. Se é propriedade,
é facilmente visto como finito e algo que pode ser possuído.
Se espectro é cor, é muito mais difícil de pensar
deste modo. Reed reformularia a frase "a WABC-AM tem uma licença
exclusiva para radiodifundir a 770 kHz em NYC (Nova Iorque)" para
"O governo concedeu à WABC-AM
uma licença exclusiva para o Verde Floresta em NYC ". Só
então, de acordo com Reed, a política de licenças
atual soa tão absurda quanto é.
Mas
se os fótons não interferem, por que nossos rádios
e celulares ficam chiando? Por que às vezes sintonizamos duas
estações ao mesmo tempo sem ouvir nenhuma direito?
O
problema não são as ondas de rádio. São
os receptores: "Interferência não pode ser definida
como um conceito significante até que um receptor tenta separar
o sinal. É o processamento que torna-se confuso, e a confusão
é altamente específica ao receptor, Reed diz. Interferência
não é um fato de natureza. É um artefato de algumas
tecnologias. Isto é óbvio a qualquer um que melhorou um
receptor de rádio e descobriu que a interferência sumiu:
O sinal não mudou, assim o processamento do sinal é que
deve ter melhorado. A interferência estava desde o princípio
no olho do observador. Ou, de acordo com Reed, "Interferência
é como chamamos a informação que um receptor não
consegue distinguir".
Mas,
Reed continua, "eu não posso concordar em colocar toda a
culpa nos receptores". Nós temos rádios estúpidos
não porque não sabemos como os fazer inteligentes, mas
porque há pouca razão para tal. Eles são projetados
para ver sinal como tudo que entra em uma freqüência particular,
e ruído como tudo em outras freqüências. "O problema
é mais complexo que só fabricar rádios inteligentes,
porque algumas das técnicas para processar sinais no receptor
são melhor implementadas no transmissor, ou em uma rede de transmissores
e receptores. Não são apenas os rádios. É
toda a arquitetura de sistemas!"
Um
dos exemplos mais simples de uma configuração que funciona
foi inventado durante a Segunda Guerra Mundial. Nós estávamos
preocupados que os alemães poderiam embrulhar os sinais com os
quais nossos submarinos controlavam os torpedos. Isto inspirou a primeira
tecnologia de "freqüência-saltante": transmissor
e receptor foram feitos para trocar, em veloz sincronia, entre um grupo
de freqüências determinadas. Mesmo se algumas dessas freqüências
estivessem em uso por outros rádios ou 'embrulhadores', descoberta
de erro e a retransmissão assegurariam uma mensagem completa
e correta. A Marinha norte-americana usa uma versão de freqüência-saltante
como a base de suas comunicações desde 1958. Assim sabemos
que sistemas que permitem transmissores e receptores negociarem funcionam--e
muito bem.
Assim,
que arquitetura Reed implementaria se ele fosse o rei do mundo ou, menos
provável, presidente da FCC?
Aqui
ele é dogmaticamente não dogmático: "Tentar
decidir a melhor arquitetura antes de usá-la sempre falha. Sempre".
Esta é de fato a síntese em uma linha do Argumento Ponta-a-Ponta
que ele e seus co-autores apresentaram em 1981. Se você quer maximizar
a utilidade de uma rede, e manter seu papel, deve retirar tantos serviços
quanto possível da própria rede. Embora isso não
seja tão contra a lógica quanto a noção
de fótons que não ocupam espaço, pelo menos não
é óbvio, porque nossa tentação habitual
é melhorar uma rede adicionando serviços a ela.
Isso
é o que as companhias de telefone fazem: elas acrescentam a identidade
do emissor, e tornam sua rede mais valiosa. Nós sabemos que é
mais valioso porque eles nos cobram mais por isto. Mas o Argumento Ponta-a-Ponta
diz que adicionar serviços diminui o valor de uma rede de comunicações,
porque isso é tomar decisões de antemão sobre o
que pessoas poderiam querer. Ao invés, Reed e seus colegas defendem,
mantenha a rede sem serviços específicos de forma que
seja aperfeiçoada para habilitar inovações sugeridas
pelo usuário (a "Ponta").
Este
profundo princípio arquitetônico está no centro
do valor da Internet: Qualquer um com uma boa idéia pode implementar
um serviço e oferece-lo na rede em vez de ter que propô-lo
aos "donos" da infra-estrutura e esperar que eles o implementem.
Se a telefonia fosse como a Internet, nós não teríamos
tido que esperar 10 anos para adquirir o indicador de chamadas tipo
Bina (B indica A); teria sido organizado em uma manhã, implementado
à tarde, e estaria pronto para ofertas competitivas na hora do
jantar.
Para
Reed a pergunta é, qual o acordo mínimo exigido para ordenar
as comunicações sem fio? Quanto menos construções
colocadas no próprio sistema, mais inovação--em
idéias, serviços e modelos empresariais--surgirão
nas extremidades.
Há
grande controvérsia, porém, sobre exatamente o quanto
de protocolo "aperto de mãos" deve ser embutido pelo
fabricante e obrigado por lei. Reed acredita que na medida em que cresce
o número de funções básicas de processamento
de sinal de rádio que são defined in software, (definidas
por softwares), em lugar de gravadas no hardware, os rádios poderão
adaptar-se às novas mudanças, mesmo depois de estarem
em uso. Reed vê um mundo de "rádios bem-educadas"
que negociarão novos protocolos de diálogo e pedirão
ajuda a suas colegas.
Ainda
que a FCC seja retirada do centro do sistema de forma que os "finais"
possam negociar dinamicamente as conexões mais eficientes, Reed
vê uma área para envolvimento governamental: "A FCC
deveria ter o papel de especificar a pesquisa de ciência e tecnologia
pertinente, através da NSF - National
Science Foundation (Fundação de Ciência Nacional).
Pode até mesmo haver lugar para um regulamento centralizado,
mas que seja focalizado em problemas reais na medida que surgirem, não
em fantasias teóricas baseadas em projeções de
limites de tecnologia atuais."
Falando
com Reed fica claro que ele se sente frustrado. Ele vê uma economia
que está pronta para deslanchar sendo bloqueada por políticas
baseadas na tecnologia de quando o Titanic afundou. (Literalmente: O
governo se deu o direito de regular as ondas de rádio em 1912
por causa da inabilidade do Titanic em enviar um sinal claro de SOS).
Uma chave para a nova geração, de acordo com Reed, são
os SDR-
software-defined radios (rádios
definidos por softwares). Um SDR é inteligente justamente
onde os receptores atuais não são. Não importa
quão sofisticado e caro é o receptor em sua sala, quando
ele sintoniza uma estação só sabe fazer uma coisa
com a informação que está recebendo: trata-la como
dados para criar variações sutis na pressão do
ar. Por outro lado, um SDR não faz nenhuma suposição
assim, é um computador e pode tratar dados da maneira que for
programado. Isso inclui poder decodificar duas radiodifusões
em uma única freqüência, como demonstrou
Eric Blossom, engenheiro no projeto
de Rádio GNU.
Claro
que um SDR não precisa tratar informação como sons
codificados. Por exemplo, diz Reed, "quando uma nova Super-Fabulosa
rede de TV de Ultra-Definição difundir seu primeiro sinal,
os primeiros bites serão um URL para um Website que contém
o software para receber e decodificar os sinais em cada tipo de TV no
mercado ".
Mas
os SDR só tratam de um componente. Reed vê inovação
em todo espectro. Ele e seu colega, o técnico Dewayne
Hendricks, têm discutido o que eles chamam de "faixa
ultra larga", um nome criado para se referir a um grupo de técnicas
onde a UWB
"ultra-wide band" (banda ultra-larga) é a mais
conhecida. As faixas ultra-largas juntam enormes quantias de informação
em mensagens muito pequenas e as transmite por um amplo conjunto de
freqüências: muitas cores, muita informação.
Reed diz: "O UWB proposto atualmente é um simples
primeiro passo. Emissores UWB são simples e poderiam ser
bem baratos. Podem transmitir uma quantia enorme de informação
em uma mensagem muito pequena--por exemplo, um DVD inteiro poderia ser
enviado a seu carro em um 'drive-through' de video-locadora. Outras
técnicas de banda-muito-larga,
não tão desenvolvidas quanto a UWB, espalham energia mais
suavemente no tempo e, Reed acredita, é mais provável
serem a base de redes altamente renováveis.
Pelo
compromisso Ponta-a-Ponta de Reed, deve estar claro que ele não
está interessado em legislar contra tecnologias velhas mas ajudar
o mercado de usuários decidir a tecnologia que eles querem. "Nossa
meta deve ser habilitar um processo que encoraja a obsolescência
de todos os sistemas atuais tão depressa quanto economicamente
praticável. Isso significa que tão rápido quanto
possa ser desdobrada tecnologia mais nova, melhor para implementar funções
herdadas, esses funções devem desaparecer devido a competição".
em outras palavras, você poderá sintonizar o sinal do "West
Wing" da rede NBC em sua TV até que tantas pessoas tenham
abraçado a nova tecnologia que as emissoras decidam abandonar
as técnicas de difusão atuais. "As pessoas não
foram obrigadas a abandonar o Apple II. Fizeram isto voluntariamente
por ter surgido uma tecnologia melhor", Reed afirma.
Mas
em última instância Reed não está nisto porque
ele quer que nós tenhamos televisões melhores ou máquinas
fotográficas digitais ligadas em rede. "A má Ciência
está sendo usada para fazer a concentração oligárquica
nas comunicações parecer um fato da paisagem".
Abrir o espectro para todos os cidadãos iria, de acordo com ele,
ser um passo épico em substituir o "não"
pelo "e" na famosa frase de Richard
Stallman: "Livre como em 'livre expressão', não
livre como 'cerveja livre'". De acordo com Reed: "Nós
nos acostumamos a parcelar pedaços e falar sobre 'largura de
banda'. Abrir o espectro mudaria tudo isso".
Mas
certamente deve haver algum limite. "De fato, não há.
Informação não é uma coisa física
que tem que ter um limite exterior mesmo se nós ainda não
sabemos qual é o limite. Além de avanços na compressão,
há algumas pesquisas espantosas que sugerem que a capacidade
informadora de sistemas pode de fato aumentar com o número de
usuários". Reed está se referindo a trabalhos de
investigadores no campo de redes de rádio, como Tim
Shepard e Greg Wornell do
MIT, David
Tse da UC-Berkeley (Universidade
da Califórnia em Berkeley), Jerry
Foschini da Bell Labs, e
muitos outros, como também trabalho sendo realizado pelo Laboratório
de Mídia do MIT. Se esta pesquisa cumprir sua promessa, será
mais um modo de mostrar como a metáfora de espectro-como-recurso
é falsa e desencaminha a política.
"A
melhor ciência é freqüentemente contra a intuição",
Reed conclui. "E ciência ruim sempre conduz a políticas
ruins".
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Tradução:
Guilherme Barcellos
Sobre o escritor
David Weinberger
é co-autor de "The Cluetrain
Manifesto" (O
Manifesto Cluetrain) e autor de "Small
Pieces Loosely Joined" (Pequenos
Fragmentos Livremente Unidos).
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