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vozes da revolução digital

Mídia Política e Educação
Transcrição da entrevista de Claudio Naranjo
a Marcos Menezes, do CMI - Brasil

Junho, 2002



Dr. Claudio Naranjo, o Sr. poderia falar um pouco sobre a influência dos meios de comunicação na sociedade hoje?

Os meios de comunicação tem um grande potencial educativo, mas também um grande potencial de distorção. Hoje no mundo a função predominante dos meios de comunicação é a distorção. Assim como na vida individual existe a mentira, na vida social esta é indispensável para a estabilidade do sistema, que as pessoas sejam continuamente submetidas a uma lavagem cerebral. As pessoas não tem idéia de quanto se está influindo nelas para que pensem de uma maneira e não de outra.




De Claudio Naranjo:

Os Três Tipos de Amor
(Do Bom Amor, e do Outro)

Palestra em Barcelona, em 17/11/2000

e
Sobre Claudio Naranjo

Em todos os países, os meios de comunicação são possuídos pelos que tem muito dinheiro. Este dinheiro vem das grandes empresas transnacionais. Hoje vivemos em um império capitalista global cujo totalitarismo é maior do que os antigos governos fascistas. Mas não se tem idéia disso, porque está tudo engenhosamente disfarçado. A situação mundial não melhora, os pobres fica mais pobres quando o mundo fica mais rico. A diferença entre pobres e ricos aumenta, todos ficam mais escravos do mercado de trabalho, tem menos tempo para crescer, para viver, para ser. Ainda menos tempo do que na idade pré-história. Mas apesar disso, as pessoas estão muito contentes com a idéia de progresso, e tudo isso devemos aos meios de comunicação que convencem as pessoas de que tudo está bem, e as distraem da realidade mantendo-as entretidas.

Pode-se realizar muito através da educação e da comunicação, mas este potencial verdadeiramente transformador é utilizado apenas por iniciativas pequenas. Há que saber que rádio escutar para ter este tipo de comunicação positiva.

Teria algum conselho para quem trabalha nos meios de comunicação e quer contribuir com o desenvolvimento da consciência e da cidadania? Como associar educação aos meios de comunicação?

Nunca pensei nisso. Sinto que as pessoas não tem muita escolha. Quem trabalha hoje nos meios de comunicação apenas "consegue" um trabalho. Hoje em dia é um privilégio trabalhar, já que o desemprego aumenta em todo o mundo. Me pergunto se isto não é parte do plano do sistema - ter muitas pessoas desempregadas para que quando um não se adapte ao sistema, existam vários desejosos de ocupar seu lugar.

Eu acredito no poder da consciência. O poder da violência e do dinheiro no mundo controla tudo. A única esperança de mudança vem através da consciência. Mas como fazer se a publicidade e a comunicação dependem do dinheiro. Não sei, nunca pensei. Talvez pouco a pouco vamos descobrindo onde há "ar fresco", onde há uma comunicação verdadeiramente nutritiva.

Imagino que a Internet pode ser uma ajuda para obtermos essa comunicação e sabermos que rádio escutar, ou o que ler. Entretanto, Os mesmos meios que servem para uma coisa servem para outras. A Internet tem um grande potencial democrático no mundo, por seu aspecto horizontal, mas hoje também é o principal meio de vendas e de negócio. O sistema comercial no mundo é um grande problema. Tudo o que antes se fazia na gente, agora se compra. Se tira mais e mais das pessoas sua propria capacidade de prover suas necessidades. São provedores já estabelecidos.

Eu trabalho com saúde mental, oficialmente sou médico e terapeuta, e tido como um guia espiritual. Mas tenho muita experiência com o sistema profissional, o "grêmio" dos terapeutas, que tira da gente as possibilidades de trabalhar entre as pessoas. Há muito que as pessoas podem fazer aprendendo a trabalhar em si mesmas, os grupos podem progredir para a ajuda mútua, e parte do meu trabalho é ensinar esta multiplicação do conhecimento terapeutico, mas a psicanalise diz que somente os analistas podem ajudar as pessoas a se auto-analisar. Desta forma, tira-se a confiança de que cada um pode realizar o trabalho, para torná-lo dependente.

Mas isto acontece em tudo. Antes as pessoas construiam suas proprias casas, e hoje, mais e mais as pessoas devem comprar suas casas de empresas. Quem quer construir independentemente tem toda sorte de dificuldades em conseguir as permissões, tem que adaptar-se. Não é bom para os negócios que as pessoas em geral desenvolvam seu potencial em construir. Assim com tudo. As pessoas não podem mais caminhar, e não se questiona a dependência das pessoas dos veículos movidos a petróleo. Tudo funciona para a vantagem dos que vendem o petróleo e manejam os veículos.

Se o Sr. fosse mudar esta situação da sociedade, proporia uma adaptação ou o colapso do sistema seria a saída? Como seria a construção de um mundo com mais consciência e cidadania?

Creio que não se pode planejar uma coisa assim. Tem que começar pela consciência, pelos indivíduos, pela vida orgânica. Não se pode planejar um substituto para a vida que vivemos, e o sistema vai colapsar - é como uma nave que afunda, e que temos que usar os salva-vidas. Um período de salvamento - ou transformamos ou terminamos. Morrem muitas espécies cada dia, o meio ambiente se deteriora... o colapso econômico não é o único ou mais importante problema. Talvez as guerras sejam uma forma deseperada do sistema em salvar sua economia para que pareça que "tudo vai bem".

Através de toda a história se tentou a possibilidade de progresso sem privilegiar o desenvolvimento interior. Também no sistema socialista se dizia que se precisa um homem novo para um mundo novo. Mas apenas se dizia, e não se fomentava este desenvolvimento pessoal. Agora não há alternativa. As pessoas estão muito subdesenvolvidas. Recebemos somente uma educação intelectual, uma instrução, que serve para passar nos exames, e não para a vida.

A única forma massiva de realizar este desenvolvimento humano é a educação. A religião é somente para as pessoas com vocação, a terapia é para as pessoas que sofrem (a maioria não sofre, se adapta). Se queremos um mundo novo temos que realizar uma educação massiva de seres plenos, isto quer dizer seres que tem 3 cerébros. É verdade: temos presente os aspectos inteceltual, emocional e instintivo.

É muito importante uma educação do amor, da capacidade em se desenvolver relacionamentos sadios. E também o cerebro instintivo está muito perturbado porque a civilização é anti-instintiva, contrária a liberdade e a espontaneidade, o que se reflete nesta atitude de domínio e exploração da natureza. Esta agressão externa à natureza também acontece interiormente - as pessoas exploram a si mesmas como instrumentos de trabalho, e deixam de cultivar a si mesmos, não amam a si mesmos.

A reintegração da parte animal do ser humano é indispensável para a felicidade. E não é natural que uma geração inteira esteja aqui para sofrer, para sentir-se insatisfeita com a vida. Isto cria necessidades artificiais, e convém ao mercado porque estas insatisfações são canalizadas pelo sistema que anuncia: "vou vender-te isto, que lhe trará a felicidade". E isto não é verdade. Precisamos recuperar nossa capacidade interior de estar contente consigo mesmo, e então precisamos muito pouco do mundo exterior. A alimentação básica e um teto basta.


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Transcrição do original em MP3:
José Murilo Junior

Sobre o escritor
Dr. CLAUDIO NARANJO realizou estudos de medicina, música e filosofia no Chile. Foi professor de psicologia da arte e psiquiatria social. Foi diretor do Centro de Estudos de Antropologia Médica. Nos Estados Unidos, foi um dos integrantes do Instituto Esalen, chegando a ser um dos sucessores diretos de Fritz Perls (criador da terapia Gestalt). É considerado um dos pioneiros da Psicologia Transpessoal e um integrador da psicoterapia com a espiritualidade. É fundador do Instituto SAT - Seeker Afther Truth, uma escola psico-espiritual dedicada principalmente à formação integral de psicoterapeutas na Europa e América. O programa SAT, aplicado à educação facilita o fator amoroso na educação do coração, priorizando o amor no contexto da prática, da informação e dos conteúdos..