Comentarei,
como Suzy, celebrando a iniciativa dos organizadores em fazer um evento
sobre este tema "amor e terapia", porque me parece que merece
ser enfatizado. A terapia tem a ver com muitas coisas, de modo que se
pode falar de terapia e isto, ou terapia e aquilo: a terapia e a compreensão
de sí mesmo, a terapia e a dor, a terapia e a transferência,
enfim. Mas a relação do assunto amor com o assunto terapia
é mais intrínseca. Se pode dizer que todos os males que
se tratam na terapia começam com um problema amoroso; começam
todos os problemas emocionais por uma carência amorosa na vida
da pessoa. A natureza das neuroses, ou como quer que sejam chamadas
- agora que está desaparecendo esta palavra, tão útil
- todas as perturbações emocionais, digamos, consistem
em perturbações do amor, problemas do amor. E a terapia
tem muito que ver com o amor em seu processo. Não é que
baste o amor - creio que não basta - para que haja boa terapia;
mas até os psicoanalistas estão hoje em dia bastante de
acordo que não é o insight o assunto mais importante na
terapia psicoanalítica (que tem sido a terapia tão essenciamente
orientada ao insight através de toda a sua história),
mas a relação. E quando se fala de relação
se quer dizer em forma científica algo que seria pouco científico
chamar "amor"; bom, pelo menos benevolência. E o fim
da terapia é o amor, porque, pelo menos penso eu que não
estou só, aqui entre os presentes, em pensar que a felicidade
se consegue pelo amor; se a felicidade é própria da saúde,
passa pela capacidade amorosa, passa pelo curar a própria capacidade
amorosa.

Auto-nacimiento.
Tótila Albert
Agora,
entrando no meu tema específico, do "O bom amor e o outro",
qualquer pessoa que viva na Espanha ou que seja espanhol se dará
conta de que há aí uma referência ao Arcipreste
de Hita, o "Livro do bom amor". Mas não compartilho
sua visão de que só o amor a Deus seja bom. Naquela célebre
obra se contrapõe o amor a Deus com o amor carnal. E a proposição
que venho a fazer aqui é que ambos são bons amores, e
que são duas partes do bom amor; que o amor não é
uma só coisa. De um ponto de vista podemos dizer que são
muitíssimas coisas. Assim como uma vez Mendelssohn comentava,
a propósito da linguagem musical, que não é que
seja menos exata que a linguagem verbal, mas que é mais específica
porque cada frase musical que expressava uma alegria, expressava uma
alegria um pouco diferente. Assim, os gestos do amor são inumeráveis.
Poderíamos dizer que há gente que ama através de
sua capacidade de apreciação, há gente que ama
através de sua tolerância, há gente que ama através
da gratidão; são muitas as manifestações
da emoção que têm a ver com o amor, mas me parece
que fundamentalmente há três elementos básicos no
que chamamos amor, três amores fundamentais.
Um
é o amor que poderíamos chamar o amor freudiano, o Eros
- amor intimamente vinculado com a sexualidade, que para Freud foi o
amor básico (a amizade para ele era um amor erótico privado
de seu fim, e a benevolência uma transformação do
Eros). Mas, é mais fácil, menos rebuscado, pensar que
há na benevolência um amor diferente do Eros, que podemos
chamar de amor cristão. Apesar do que digam os freudianos não
creio que quando se fala de "amar ao próximo como a si mesmo"
se trate de amor erótico sublimado. Mais natural nos parece pensar
que a generosidade e a empatia existem por direito próprio, por
assim dizer; e é isto o que no cristianismo se designou como
cáritas, ou em grego, Ágape. Intuitivamente sentimos que
nem deriva normalmente a atração sexual de uma atitude
compassiva, nem deriva a compaixão da sexualidade; devemos, portanto,
falar de Eros e Ágape, ou de amor e cáritas.
Mas
também há um terceiro amor, que me parece tão diferente
destes dois como eles entre si, e que merece ser reconhecido como relativamente
autônomo: o amor que está implicado na amizade, e que para
continuar acudindo ao grego, poderíamos chamar Filia, palavra
à qual recorre Platão para algo muito diferente do que
hoje em dia chamamos amor platônico - que é uma manifestação
sublimada do impulso erótico. Trata-se de um amor que bem poderíamos
chamar "Socrático", pois embora Sócrates use
a palavra Eros em referência ao amor ao ideal - ao belo, ao grande,
ao bom e às demais coisas que valem por si mesmas - este amor
aos ideais ou às idéias é so por analogia comparável
à atração amorosa entre os sexos. O amor à
justiça e o amor ao divino, me parece, não só diferem
do Eros em seu objeto, mas em sua natureza mesma e qualidade subjetiva:
no tanto que o erótico é apetitivo, este terceiro amor
que subjaz a relações que não são nem eróticas
nem de ajuda ou proteção, mas de amizade "desinteressada",
é valorativo. Poderíamos chamá-lo amor-adoração;
mas no âmbito dos sentimento mais comuns sua manifestação
típica é o apreço. Relacionam-se, então,
os três amores com o desejo, com a bondade (que culmina com a
compaixão) e com o apreço - que se vê exaltado na
admiração e culmina na adoração.
Podemos
falar em um amplo sentido do Eros como um amor-gozo: um amor que goza
do outro, que se compraz na beleza do outro, e indo mais além
de uma definição estritamente ligada à sexualidade
incluiríamos o que o budismo chama "mudita", que é
um alegrar-se da alegria alheia, que é muito diferente da benevolência
compassiva que não quer o sofrimento alheio. Um tem mais a ver
com o Eros e o outro com o Ágape. Poderíamos pensar que
é a bondade a mais humana das manifestações do
amor, mas não seria exato. Embora seja humana a generalização
maior ou menor da benevolência, em suas origens o amor-bondade
está intimamente unido ao amor maternal, sendo uma extensão
natural do que sente a mãe pelas crias (e falo de "crias"
melhor que de "filhos" para aludir a algo que não é
próprio somente do homem, mas de todos os mamíferos).
É
por acaso mais humano o amor aos ideais que a bondade mesma, então?
Dizemos de uma pessoa bondosa às vezes, que é muito "humana"
porque falamos de "humanidade" para significar precisamente
o amor benevolente, e em troca associamos o amor-adoração
com o fanatismo e muitos atos "inhumanos". No momento me limito
a assinalar que o amor valorizante não deixa de ter antecedentes
ou raízes biológicas, pois em seus começos este
amor ao grande (que contrasta com o amor maternal ao pequeno) é
muito próprio do que se sente de menino em relação
ao pai. Se a mãe é a que nos dá o que necessitamos
satisfazendo nossos desejos, o pai é aquele para o qual ela está
olhando, aquele a quem a mãe valoriza. A mãe, que nos
dá tudo, é fonte original dos valores, mas também
modelo original no que diz respeito ao que há de ser valorizado
- e assim é que ocorre, como se a mãe implicitamente delegasse
ao pai a ordem dos valores, simplesmente porque o menino percebe que
ela o ama.
Algo
tem a ver o Ágape, então, com o amor de mãe, e
algo tem a ver com o amor aos ideais ou Filía com o amor de pai.
E digo que este tem uma raiz biológica não só porque
deriva de uma situação arcaica ou proto-psicológica
em nossa vida individual, mas porque a valoração se relaciona
estreitamente com a imitação, que não só
está na origem de que sejamos animais culturais, mas que é
muito mais arcaica que a cultura e a linguagem. Pensemos em como os
pintinhos seguem o primeiro objeto que se move em seu entorno - que
pode ser a galinha mas pode também ser (como investigações
sobre este fenômeno de imprinting demonstraram) uma caixa de sapatos.
Como Lorenz observou decênios atrás em seus experimentos
com patos, ficam para toda a vida ligados ao objeto em questão,
que bem pode ser tão arbitrário como um relógio
despertador.
Embora
os humanos sejam imensamente mais complexos que os patos e as galinhas,
de modo que só podemos falar de imprinting no nosso caso em um
sentido metafórico, também nós temos uma disposição
inata a "seguir" um modelo, e na nossa vida adulta é
claro que nos deixamos guiar por aqueles a quem admiramos. Não
conhecemos todos a experiência de como, quando uma pessoa estima
outra, se apega à sua maneira de falar? E seguramente recordaremos
como, quando crianças, admiramos o herói de um filme e
logo, saímos do cinema caminhando com seu estilo. A imitação
é uma propensão biológica que nos faz humanos,
e imitando os sons emitidos por nossos pais aprendemos a falar. E não
só imitamos características individuais de nossos pais:
imitamos aquele que é geralmente admirado, e é precisamente
através dele que se transmite a cultura.

"Ave
del Retorno", también llamado "El vuelo del Genio".
Tótila Albert
Recentemente
surgiu uma nova ciência, cujo nome ainda não escutei em
castelhano - suponho que será "memética", por
analogia com a "genética" - na qual se adota o ponto
de vista de que a galinha seja o meio de perpetuação dos
ovos, e nós, meios de transmissão dos gens. Este ponto
de vista, proposto por Dawkins na biologia, inspirou um pensamento análogo
em relação aos "memes", que são entidades
culturais, como a linguagem. Propõe-se então, que as coisas
ocorrem como se as idéias se utilizassem de nós, humanos,
para se perpetuarem, e se transmitissem através de nossa capacidade
reprodutora. É uma idéia que está tomando muito
corpo, e já foram escritos vários livros sobre a capacidade
imitativa humana que torna possível esta supervivência
dos pensamentos e é tão inseparável do que somos.
Não só porque seja humana a imitação, mas
porque a imitação subjaz ao que consideramos nossa humanidade:
bem se sabe que as pessoas criadas entre selvagens ou animais não
só é a linguagem o que lhes falta, ou a "cultura"
no sentido freqüente de algo extrínseco à própria
natureza, mas aspectos intrínsecos ao que consideramos que é
um ser humano. Mas encerro aqui minha digressão, para completar
um pensamento interrompido: que há um amor que tem a ver com
a mãe, um amor que tem a ver com o pai e um amor que tem a ver
com o filho. Pois o amor-desejo é o mais característico
do filho na tríade original. O amor que se compraz na satisfação
dos desejos próprios é um que nos acompanha desde que
nascemos, e poderíamos dizer que é o menino ou a menina
interior em nós quem persegue a satisfação de sua
necessidade e busca sua liberdade.
Assim
como um célebre catalão - Raimundo Paniker - relaciona
as três pessoas da Trindade com as pessoas da gramática
- o Eu, o Tu e o Ele, outro tanto podemos dizer dos três amores.
O amor desejo é um amor que se focaliza no Eu. O amor de mãe
se dirige ao Tu. O amor transpessoal - amor ao ideal ou amor ao divino
- tem relação com o Ele. E claramente o amor-bondade,
de caráter materno, que compartilhamos com os mamíferos
(embora não sejamos todos tão bons e generosos) é
mais emocional. E às vezes se diz que é demasiado intelectual
o amor valorizante. Se alguém se une a uma mulher porque a considera
uma pessoa excelente, por exemplo, alguém poderá dizer-lhe
"eu creio que esse amor que lhe tens é demasiado intelectual",
sentindo que lhe falta coração. O amor erótico,
por outro lado, é mais instintivo.
Parece,
então, que tiveram que ver com nossos três cérebros
estes três amores. O cérebro instintivo com o Eros; o cérebro
emocional ou cérebro médio (que é o cérebro
mamífero) com o Ágape, e o cérebro propriamente
humano ou neocórtex, com o amor valorizante, que olha ao céu
(diferentemente do amor instintivo que olha à terra, ou o amor
materno que olha à cria).
Já
lhes expliquei como entendo os ingredientes do bom amor. Mas vamos agora
no que consiste o mau amor.
Talvez
se possa dizer que no final tudo é amor, de modo que podemos
dizer que só existem o bom amor e seus desvios, suas perversões.
Eu, pelo menos, sinto profundamente a verdade dessa linha final da Divina
Comédia que nos fala de "o amor que move o sol e as demais
estrelas": tem sentido conceber o amor como a força central
não só do humano, mas da Criação universal.
Quando um jornalista perguntou a Einstein sobre a incógnita mais
importante da ciência, respondeu: "se o Universo era bom";
quer dizer: se existe ou não existe uma intenção
benévola por trás da criação. Mas no geral
os científicos se conformaram em perguntar menos, e nossa concepção
atual da ciência se caracteriza pela exclusão da pergunta
sobre o porquê das coisas - o aspecto teológico ao qual
se referia a pergunta pela "causa final" dos antigos. Assim,
o conceito do amor universal distingue a percepção meramente
científica da percepção estética ou poética,
metafísica ou religiosa - enfim, aquela que evoca o "outro
lado da mente". Mas não é preciso que nos remontemos
à idéia de um possível amor cósmico para
perguntar-nos sobre os males do amor, que conhecemos de primeira mão.
Há
em primeiro lugar os obstáculos ao amor. Assim, é óbvio
que o amor compassivo não é muito compatível com
o ódio. A raiva fecha o coração de uma pessoa.
E o medo é antagônico em relação ao amor
erótico. Se alguém foi ameaçado ou castigado por
seus desejos - e sabemos desde Freud quão freqüentes são
as fantasias de castração resultantes - termina não
atrevendo-se ao prazer. Tão pouco se chega a valorizar o outro
com a inveja ou com a competência. Mas em geral todas as paixões
interferem com todos os amores. Todas as necessidades neuróticas
interferem com o amor.
Há
ainda falsos amores, há as falsificações do amor.
Assim, a compaixão poderia caracterizar-se como uma energia muito
alta, um dos mais altos valores - e quando disse São João
"Deus é amor" seguramente se referia ao amor compassivo,
ao amor benévolo - mas a maior parte do que se chama bondade
no mundo humano é super egóico, quer dizer, resultado
de mandatos internalizados da cultura que diz "deves ser bom".
Implica uma compaixão obrigatória e uma ameaça:
"deves ... e se não, irás para o inferno". E
cada um se condena a si mesmo implicitamente por não ser suficientemente
bom, e se manda efetivamente ao inferno na vida. Não é
muito amorosa esta atitude, e o que se chama compaixão poucas
vezes não deixa de ser resultado da boa educação
e do fingimento.
E
o amor erótico também se falsifica. Assim como existe
um amor instintivo são e verdadeiro, que é profundamente
satisfatório, há um falso amor erótico que é
como uma moeda de troca para conseguir amor, uma forma de sedução
na qual a sexualidade se põe a serviço de uma sede de
proteção, inclusão ou companhia. Não é
o instinto sexual o que impulsiona a pessoa em tais casos, mas suas
necessidades neuróticas, assim como a de preencher a solidão
ou a insignificância - só que estas necessidades se disfarçam
por trás da máscara de eros.
E
não se falsifica o amor-respeito de forma semelhante a como se
falsifica a benevolência? O mandamento de Moisés "honrarás
a teus pais" se baseia na compreensão de que uma pessoa
sã sente um são apreço por aqueles que foram os
primeiros "deuses" em sua vida. Durante nossa primeira infância
seguramente nossos pais, que eram a mostra do que é um ser adulto,
nos pareciam tão gigantescos como de adultos nos parece o divino
ou sobrenatural, e apesar de não termos esquecido, não
é significativo que nossa vivência do divino através
da história tenha se formulado principalmente por meio das imagens
de nossos progenitores? Por mais que não se possa desconhecer
que alguns pais sejam pessoas emocionalmente enfermas e por isso pessimamente
dotados para sua função, creio que encerra uma grande
verdade a observação do pitagórico Jámblico
- reiterada por Gurdjieff - de que um bom homem ama a seus pais.
Que
pese a verdade que encerra o quarto mandamento, no entanto, ocorre que,
por trás de tantos séculos de autoritarismo, o imperativo
de amar aos pais nos infantiliza. Não é um amor verdadeiro
o que inspira o mandato social e familiar, mas um amor servil; e mais
geralmente, se lhe rende homenagem a muitas coisas - tanto ideais como
pessoas - como parte de um gesto obediente.
Creio
que não necessito demonstrar ou explicar o fato comprovável
através da experiência de todos que, obviamente, os falsos
amores também constituem interferências no amor verdadeiro.
Entranham uma malversação da energia psíquica comparável
ao que ocorre com a nutrição e a energia biológica
em um organismo que alimenta um parasita. E o que "ama" só
às custas de permanecer cego ao seu auto-engano perpetua sua
própria mentira e sua inconsciência - que são obstáculos
da vida autêntica e também do amor. Pelo contrário,
quando a pessoa começa a conhecer-se através de um processo
terapêutico ou espiritual, cedo ou tarde descobre que não
ama de verdade, e somente a partir do descobrimento de sua falsificação
e de seu vazio começa a descobrir o amor verdadeiro. Mas tem
que ser muito virtuosa uma pessoa para dar-se conta de que não
ama, pois tanto do nosso bem-estar deriva de sentirmo-nos amorosos e
é muito o que se vem investindo na imagem de pessoa boa. É
muito difícil, apesar de heróico, despojar-se dessa ilusão
para logo saltar ao abismo pelo que misteriosamente se chega à
vida verdadeira e seus valores.
E
há amores eminentemente parasíticos: amores que são
carências disfarçadas por trás da máscara
do amor. Essencialmente são maneiras de preencher o próprio
vazio, maneiras de compensar as próprias carências com
o amor alheio. E me parece que estes amores parasíticos também
são de três classes, segundo o tipo de amor ao qual se
orienta sua sede.
Seguramente
todos conhecemos pessoas que sofrem e se perdem em uma busca exagerada
do amor através das relações sentimentais ou da
sexualidade, que tão estreitamente ligada está ao sentir-se
aceito e valorizado. Ainda quando o que se busca às vezes parece
ser mais o prazer que o amor, creio que isso pode ser uma ilusão
que oculta uma busca não reconhecida de amor através do
sexo.
Outras
pessoas - que foram mais dependentes de suas mães, no geral -
buscam proteção. Porque lhes faltou cuidado andam pela
vida como órfãozinhos ou como inválidos, buscando
o cuidado que faltou e procurando inspirar compaixão. E há
pessoas que buscam sobretudo o respeito; pessoas que não buscam
tanto "amor" no sentido mais comum da palavra, mas o reconhecimento
ou a admiração - pelo que dedicam grande parte de sua
vida e energias para serem importantes. É isto o que comumente
chamamos de "narcisismo" - a paixão de ser querido
dessa maneira particular: que o considerem importante, grande, superior.
E
claro, quanto maior o amor parasítico, quer dizer, quanto mais
energia da pessoa está dedicada ao seu aparato de buscar amor,
quanto mais ocupada está em conseguir amor, menos o encontra.
É como estar empurrando uma porta que se abre somente pelo lado
de dentro. Muitas vezes citei esta metáfora de Kierkegaard, que
em alguns de seus livros observa que a porta do paraíso só
se abre por dentro. Por isso há que se chegar a apaziguar as
paixões, aprender a não empurrar tanto, desenvolver uma
verdadeira receptividade em relação ao que há.
Bom,
já lhes coloquei minhas considerações sobre os
maus amores e lhes falei antes sobre os ingredientes do bom amor, e
se terminasse aqui minha exposição não me estranharia
deixá-los com a impressão de que não disse nada
novo. Se eu pudesse talvez pretender certa novidade seria minha atitude
inclusiva e a forma como ordenei as idéias. Não me parece
que tenha nada de novo no repertório de bons e maus amores que
lhes apresentei. Mas ainda não terminei e me parece que a idéia
mais nova que posso acrescentar em relação ao amor, e
que é o que eu gostaria de examinar mais e na prática,
em forma de curso, é a de que a saúde e também
a plenitude da vida amorosa tenha relação com o equilíbrio
entre nossos três amores. O que implica que talvez possamos avançar
até uma maneira de amar mais completa através de uma análise
da própria "fórmula amorosa". Todos temos uma
determinada fórmula. Alguns têm muito amor erótico,
e pouca compaixão; alguns têm muito amor ao divino - amor
devocional - e pouco amor erótico. E me parece que o assim chamado
mandamento cristão, que não é na realidade só
cristão, porque está já no Deuteronômio e
no espírito da tradição judía antiga, aponta
justamente à harmonização de amores diferentes.
Recordarão
seguramente os presentes essas famosas palavras de Cristo com respeito
de que toda a lei de Moisés pode resumir-se em: "ama ao
próximo como a ti mesmo e a Deus sobre todas as coisas",
mas talvez não tenham reparado que as três diretivas implicam
por sua vez os três bons amores dos quais lhes falei. Pois o amor
ao próximo é benévolo, pelo tanto que o amor a
si mesmo - que é um amor aos próprios desejos - enquanto
amor a nossa criatura interna, é também amor pelo nosso
animalzinho interior, desejo de felicidade dirigido ao nosso ser instintivo.
O amor a Deus, por outro lado, é obviamente um amor apreciativo,
que justamente encontra no sagrado sua expressão suprema, como
amor-adoração. Penso que esta idéia de examinar
o equilíbrio entre nossos três amores - ou talvez seu desequilíbrio
- possa ser fecunda. E que seguramente ao empreender tal análise
nos daremos conta de que quando algum de nossos amores falta ou se vê
subdesenvolvido, tratamos de compensá-lo através de uma
busca impossível. Assim, podemos estar amando a Deus desesperadamente
para compensar nossa dificuldade em amar as pessoas de carne e osso;
ou estamos buscando desesperadamente a plenitude através do amor
romântico quando o que nos faltaria seria abrirmo-nos mais à
devoção, a sentimentos estéticos ou à gratuidade
dos valores transpessoais. Já os convidei a questionar tais desequilíbrios
e intenções compensatórias que só perpetuam
uma situação insatisfatória, assim como a se perguntarem
o que se pode fazer para nivelar os três ingredientes da vida
amorosa.

La Tierra.
Tótila Albert
Só
falta que lhes explique que tão pouco esta última idéia
que lhes apresentei é minha, pois a adotei de um compatriota,
o poeta e escultor chileno Totila Albert, do qual alguns de vocês
já me ouviram falar e sobre cuja visão da história
escreví em "A Agonia do Patriarcado". Alí apresentei
também sua visão do que ele chamava o "Três
Vezes Nosso", um mundo possível formado por seres que alcançaram
este equilíbrio interiormente entre suas partes "pai",
"mãe" e "filho", que compreendia como a essência
da saúde e da completude. Em uma pessoa cujo coração
se abraçam o pai a mãe e o filho com seus respectivos
amores, naturalmente não haverá nem a tirania do intelecto,
nem a anarquia da impulsividade, nem o emocionalismo desequilibrado
- e acredito que tinha razão ao pensar que somente através
de uma transformação individual massiva poderemos aspirar
a uma alternativa para a sociedade patriarcal e seus vícios arcaicos.
Com esta idéia os deixo, pois: a idéia de que o verdadeiro
bom amor consista não só de bons ingredientes, mas de
uma fórmula equilibrada. Naturalmente, todas as fórmulas
do amor estão relacionadas intimamente com o caráter,
que por sua vez está ligado a um certo déficit, mas além
de recorrer ao potencial transformador do conhecimento de nossa personalidade
penso que podemos atentar ao quanto estamos desnivelados na expressão
do nosso potencial amoroso e buscar uma maneira de reeducar-nos, buscando
as experiências, influências e tarefas que possam equilibrar-nos.
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Tradução informal
para o português:
Maria Luiza Duarte Frade
Sobre o escritor
Dr. CLAUDIO NARANJO realizou estudos de medicina, música
e filosofia no Chile. Foi professor de psicologia da arte e psiquiatria
social. Foi diretor do Centro de Estudos de Antropologia Médica.
Nos Estados Unidos, foi um dos integrantes do Instituto Esalen, chegando
a ser um dos sucessores diretos de Fritz Perls (criador da terapia Gestalt).
É considerado um dos pioneiros da Psicologia Transpessoal e um
integrador da psicoterapia com a espiritualidade. É fundador
do Instituto SAT - Seeker Afther Truth, uma escola psico-espiritual
dedicada principalmente à formação integral de
psicoterapeutas na Europa e América. O programa SAT, aplicado
à educação facilita o fator amoroso na educação
do coração, priorizando o amor no contexto da prática,
da informação e dos conteúdos..