Por muito
tempo tenho tentado não reclamar das disfunções
mais óbvias da sociedade digital. Primeiro porque as disfunções
são óbvias e já atraem a atenção
de outros. Segundo porque acredito que qualquer disfunção
irá, cedo ou tarde, submeter-se à ingenuidade humana.
Mais importante, como mencionei há alguns anos, minha real preocupação
nesta publicação (NetFuture)
são os efeitos da tecnologia quando ela cumpre exatamente o que
esperamos dela, aparentemente sem golpe contrário. Esta harmonia
superficial esconde um perigo mais profundo, que resulta da nossa vontade
demasiadamente passiva de nos adaptar ao "hardware" a nosso
redor.
Existe
uma linha muito fina entre adaptação saudável de
um lado, onde uma ferramenta é criada para servir aos objetivos
humanos mais elevados e, do outro, o "tornar-se nativo" (going
native) - a hardwerização de nossos próprios
hábitos. Na adaptação saudável temos uma
certa resistência à ferramenta, mesmo que sutil. Quer dizer,
a separação entre a máquina e nós mesmos
continua prevalecendo em nossa consciência, ainda que trabalhemos
continuamente para transcender essa divisão através da
maestria da ferramenta. Sem esta resistência e consciência
não podemos realizar o trabalho necessário para permanecer
mestres das tecnologias que empregamos. Paradoxalmente: devemos estar
cônscios da diferença entre a ferramenta e nós mesmos,
de sua oposição a nós, para que eficientemente
possamos trabalhar para torná-la "parte de nós".
Quando perdemos esta consciência, não podemos dirigir este
trabalho nem saber se estamos usando a ferramenta ou ela a nós.
Os deslizes,
erros e falhas da tecnologia pelo menos têm a virtude de, vez
em quando, nos tirar da conformidade hipnótica à maquinaria
e nos trazer à lembrança de nós mesmos como distintos
das ferramentas.
Mas me
parece, enquanto trato das centenas de spams diários e leio sobre
as leis criadas, inutilmente, para acabar com a jogatina na Internet
ou prevenir os vários abusos de crianças na Net, que nossas
insatisfações atuais refletem muito mais que tropeços
inconvenientes na grande marcha para a sociedade da informação.
Precisaremos mais do que uma pequena ingenuidade técnica. Isto
se deve ao fato de estarmos face a problemas recalcitrantes e fundamentais
para os quais talvez não hajam respostas razoáveis, pelo
menos não consistentes com nossas altas expectativas de uma vida
de assistência tecnológica tranqüila.
Há
inúmeras avenidas para se criticar a sociedade da Internet.
Os dois
assuntos que quero comentar no momento são tão evidentes,
tão claramente aqui na nossa frente que podem facilmente
ficar invisíveis. Um deles tem a ver com a Internet ser um meio
transacional famoso por sua eficiência. Muitos de vocês
irão se recordar que os elogios à eficiência desde
o começo têm sido tão extremos, tão inflamados,
tão cheios de expectativa revolucionária ("capitalismo
sem fricção"!) - e, em seus próprios termos
estreitos, tão irrefutávelmente justificados - que deveríamos
ficar alarmados.
Não
é difícil ver que um movimento direto para a eficiência
transacional sempre coloca o significado e o valor das transações
em situação de risco.
Não
que eficiência e significado sejam brutalmente opostos
um ao outro.
Pelo contrário,
eles permanecem em uma tensão criativa e necessária. Isto
nos previne de mirar apenas na eficiência. Se não temos
um objetivo separado da eficiência, não temos como dizer
se estamos ou não no caminho certo, e não temos como avaliar
a eficiência. Então as questões de eficiência
têm de estar sempre ligadas aos nossos objetivos e valores.
Qualquer
um que diga "eficiência é tudo" está dizendo
"não há objetivos nem valores neste empreendimento
(e portanto também não há eficiência relevante)".
E qualquer um que tenha objetivos e valores deve reconhecer que eles
necessariamente nos afastam da perfeita eficiência. Perfeita eficiência
refletiria o fato de não haver resistência a ser superada,
nenhum trabalho a ser feito - e portanto nenhuma meta relevante a ser
alcançada. Em suma: não podemos alcançar a eficiência
se apontarmos para ela, mas se estivermos o mais claramente possível
focados em nossas metas. Ao mesmo tempo, tal foco sempre nos levará
fazer coisas que parecem ineficientes a uma mentalidade mais estritamente
calculadora.
Então
tentar ser eficiente é como tentar ser feliz. Se você deseja
a felicidade, se desapontará. Mas, se você faz o contrário
e assume uma tarefa importante no mundo - uma atividade que certamente
o levará a assumir cargas que não te deixarão muito
feliz - você ficará surpreso em descobrir certa felicidade
no seu esforço, sacrifício e conquista. Da mesma forma,
eficiência é uma conseqüência indireta, volátil
e nunca absoluta de manter seus olhos em uma meta intrinsecamente relevante
que pode demandar "ineficiências" de você.
Em termos
mais concretos: qualquer par de amigos ou amantes pode atestar que a
busca pela mera eficiência é o caminho mais curto para
dissolver um relacionamento humano digno. Se você colocar a eficiência
como objetivo as pessoas terão o péssimo hábito
de te distrair e ficar no seu caminho.
Isto é
redundante. Todos sabem. Todos já sabiam quando a Net estava
sendo criada e celebrada por sua eficiência. Porque então
os elogios à eficiência não foram contrabalançados
mais efetivamente por preocupações com as metas e valores
"ineficientes" sendo deixados para trás? Parece que
preferimos não ligar alguns pontos.
Dos valores
que estão sendo facilmente esquecidos nas eficientes transações
através da Net, deixe-me citar apenas um: O valor de deixar
seu vizinho em sua relativa paz. O criador de spam poderia não
praticar sua atividade tão facilmente entre os vizinhos de seu
quarteirão - pelo menos não sem conseqüências
desagradáveis e muitos impactos dolorosos sobre qualquer consciência
que ele possa ter. Mas dentro da esfera do capitalismo pacífico,
onde vizinhos são substituídos por transações,
e os custos beiram zero, este é um assunto bem diferente.
O que o
psicólogo Adolf Gueggenbuhl-Craig disse a respeito do casamento
é verdade para todas as relações humanas. Matrimônio,
ele diz,
"...é
um caminho especial para descobrir a alma.... Um dos atributos essenciais
deste caminho soteriológico é a ausência de vias
de escape. Como os eremitas santos não podem se evadir de si
mesmos, os casados também não podem evitar seus parceiros.
Nesta característica parcialmente tormentosa e parcialmente
vantajosa que é a impossibilidade de escapatória está
a especificidade deste caminho.
("Marriage, Dead or Alive." Zurich: Spring
Publications, 1971 - "Casamento, Morto ou Vivo")
Mais genericamente,
é de nossa natureza que ninguém pode evitar ou ignorar
uns aos outros. É impossível. Esta verdade é expressada
sutilmente em todas as circunstâncias, mas se torna mais óbvia
quando encontramos alguém em um lugar que normalmente estaria
vazio: não podemos não responder; ignorar é em
si mesmo uma resposta viva e negativa. Não há saída
senão lidar uns com os outros, que é nosso tormento e
também nossa salvação.
Todavia,
a eficiência transacional da Net pode ser vista como uma prática
do ignorar. Aprendemos a nos conduzir como se não existisse
ninguém do outro lado da transação - ninguém
que precisemos reconhecer. E, de fato, cada dia mais é uma máquina
do outro lado, ou deveria ser. Em vários contextos humanos anteriores
não temos outra escolha que não seja adaptar nossas respostas
às maquinas que usamos; seria estúpido se fizéssemos
de outro jeito.
Redes
digitais continuam e acentuam dramaticamente a duradoura mania de perpetuar
transações despersonalizadas na sociedade moderna. Não
podemos escapar dessa mania num mundo cada vez mais complexo. Mas isso
não quer dizer que manejamos essa situação de modo
saudável. Tudo depende de nossa habilidade em achar transações
cada vez mais profundamente pessoais para contrabalançar as cada
vez mais mecanizadas, e assim manter um elo com nossa humanidade.
Posso
imaginar três saídas que este esforço encontraria:
(1) Tenho
apontado em edições recentes de NetFuture
que todo o maquinário da vida moderna, desde sua representação
na cultura e nos livros, até o advento do robô
Kismet, demonstram tendência em apresentar expressões
humanas. Aprender a reconhecer esta expressão em suas várias
qualidades através de todas as distintas camadas de mecanismos
da tecnologia moderna é um grande treinamento para nós.
Mesmo se o que tenhamos que reconhecer seja o perturbador esforço
atual em redefinir o ser humano como simples máquina, esta tentativa
de redução já é por si só um gesto
humano profundamente significativo. Apreendê-lo em todas as suas
nuances de expressão de esperança, confusão e dor,
irá aprofundar nossa compreensão.
(2) Podemos
responder a esta expressão humana mecanicamente imposta procurando
elevá-la. Isto pode significar que algumas vezes tenhamos que
sabotar o processo de forma a servir às intenções
humanas mais elevadas. Aprender o momento certo de violar um procedimento,
quando sair do caminho originalmente traçado ou transformá-lo
para que sirva a um valor maior, demanda o que há de mais elevado
em nós. O hardware ao nosso redor, com todas suas limitações
é, neste sentido, o nosso instrutor demandando nossa elevação.
(3) Podemos
aproveitar todas as oportunidades para aprofundar nossos compromissos
com pessoas, onde quer que tal comprometimento ainda seja possível.
Isto não significa necessariamente investir grandes energias
para fazer com que encontros online sejam tão intensos quanto
possível (embora tal exercício sempre trará bons
frutos). Faria mais sentido minimizar os compromissos online em benefício
daqueles mais intensos (e mais facilmente negligenciados) relacionamentos
no nosso ambiente imediato. De qualquer forma, o importante é
alcançar o encontro entre pessoas, em oposição
a um tipo de convivência semi-automatizada com meras palavras.
Tais estratégias,
acredito, oferecem a resposta mais direta que alguém possa dar
a questão, "Como tornar a Net uma parte saudável
da sociedade?"
Tudo isso
está relacionado com um segundo problema: a habilidade radicalmente
limitada do "cenário" digital em produzir comunidades
reais. Sendo um meio cultivado por sua eficiência, a Net não
possui a maioria das qualidades que dão às pessoas um
lugar onde habitar. Ela não incorpora a história ou tradição,
não possui este tipo de estabilidade e estrutura social, e não
apresenta os contextos culturais e naturais distintos dentro dos quais
as pessoas podem trabalhar adequadamente seus destinos profundos entre
si.
Novamente,
é redundante. Nenhum outro tema foi mais debatido durante a última
década do que "espaço real versus espaço
cibernético". Já sabemos, ou deveríamos
saber, que não há nada no mundo online que possa tomar
o lugar do real. As redes digitais não são para isso.
Quando,
algumas semanas atrás, um homem da Flórida foi preso por
recrutar crianças em larga escala para um site pornô, um
advogado dos E.U.A disse, "Poucos de nós poderíamos
imaginar que existiria alguém no espaço cibernético
trazendo crianças pela mão até os cantos mais doentios
da Internet." Pelo contrário, isso era exatamente o imaginado
por todo crítico da Net que merecia seu diploma de sociologia
no começo dos anos 90 - exceto que não especificado em
termos de crianças e cantos doentios. Pelo contrário,
tudo foi mantido em um nível limpo, seguro e abstrato: "todo
o mundo nas pontas dos dedos". Mas, claro, nas pontas dos dedos
das crianças também.
Quão
relutantes fomos em ligar os pontos!
Sim, o
mundo - o mundo Web, com suas indubitáveis e agora essenciais
maravilhas - nas pontas de nossos dedos. Mas estar a um click de distância
de todos lugares leva-nos a estar em nenhum lugar em particular, e isso
significa que tornar a Internet um lugar saudável para as crianças
não é uma meta realisticamente alcançável
no presente momento. Não há "lugar" para tornar
saudável, nenhum lugar onde as pessoas se relacionam, onde o
desenho das casas com seus quartos privados e comuns, o desenho das
ruas, a localização dos negócios, escolas, parques,
a estrutura construída ao longo de anos dos relacionamentos familiar
e comunitário, os ritmos de trabalho, estudo, comércio,
jantar, recreação e conversação, a realidade
terrena do Sol, brisas, chuva e mosquitos - não há lugar
onde estes e outros milhares de fatores podem se juntar para dizer,
"Aqui está você. Seu nome está escrito neste
lugar. Você pertence aqui, e está seguro."
Lugares
reais se tornam seguros e saudáveis por virtude de uma complexidade
material infinita do tipo certo. Na Internet, por contraste, somos forçados
a proteger as crianças através de ferramentas técnicas
inteligentes através das quais podemos realmente fabricar "ruas"
e "lares" e "parques". Mas dentro desta esfera técnica,
toda ferramenta inteligente funciona primeiramente para chamar uma ainda
mais inteligente. Enquanto as reais ruas, vizinhos e olhares atentos
não desaparecem quando uns poucos bits são trocados de
lugar, os lugares na Internet mudam de fachada instantaneamente.
Assim
é o "mundo" para o qual tantos têm desejado transferir
os locais de trabalho de nossa sociedade, prefeituras, escolas, clubes
de recreação. Não tenho dúvidas de que alguma
transferência de funções é inescapável
e adequada atualmente. Mas o equivalente a uma louca corrida por terra
- neste caso, encorajada pelo governo, com incentivos fiscais, corrida
de consumidores para terra nenhuma - será catastrófica,
senão por outras, pelo menos pelas duas causas que mencionei:
o impacto destrutivo sobre os casos de mecanismos cujas recomendações
primordiais são sua eficiência; e a desorientação
resultante da perda do lugar real, com seu complexo papel de nos firmar
e estruturar nossas vidas.
Lugares
reais com suas instituições sociais permitem a incorporação
de valores infinitamente variáveis em contextos diferentes -
e fazem isso de um jeito que encoraja as pessoas a tomar suas posições
de acordo com estes "valores graduais" onde quer que elas
se sintam mais confortáveis. Ainda assim todos estes lugares
diferentes podem coexistir como parte de uma sociedade maior - uma coexistência
que começa com o fato básico de que a terra em si mesma
é, no final, uma terra, e tentativas de comprometer esta integridade
levam a calamidades ecológicas. Temas como desmatamento e
aquecimento global unem Índios Amazônicos e Esquimós
do Ártico em uma única comunidade com interesses semelhantes,
mesmo que as características diferentes de cada terra tragam
culturas radicalmente diferentes. (devo uma apreciação
completa deste fato às conversas com David
Abram, autor de "The
Spell of the Sensuous".)
Em uma
paisagem real, há uma diferença entre estar aqui e lá.
Isso facilita explicar como o "aqui" pode preservar seu próprio
caráter, diferente do "lá". Porque a troca de
lugares requer trabalho e uma certa dissipação de energia,
um lugar não pode influenciar o outro tão facilmente.
Uma sucessão
histórica de tecnologias de comunicação cada vez
mais poderosas perturbaram esta delicada trama de valores locais e diversidade
global. A Internet promete uma quase perfeita culminação
da história. Quando telas são inseridas em inúmeros
pontos dentro do padrão cultural diferenciado, tornando-se parte
da experiência da maioria dos membros da sociedade, e quando todas
essas telas trazem algo e tudo com eficiência indiferente, aí
todo modelo ordenado e baseado no local está em risco de uma
dissolução caótica.
Quando
me referi acima às conseqüências catastróficas
da eficiência unilateral e sem-terra, não quis dizer que
iremos necessariamente viver eventos amplamente reconhecidos como catastróficos.
Tudo o que acontecer será sem dúvida aclamado por muitos
como "progresso". Os elementos catastróficos a que
me refiro já existem para quem quer ver: por exemplo, a atual
revisão científica do homem e do mundo como sendo uma
forma de máquina computadora; a inabilidade das crianças,
quando crescerem, de viver uma motivação orgânica
e profunda de se conectar consigo mesmos e com a sociedade.
Deixe me
dar mais um exemplo do que chamo de "catástrofe". Há
um novo mundo de pague e jogue na Internet onde os jogadores podem ganhar
(ou perder) dinheiro. Chris Grove, diretor da YouPlayGames
argumenta que a novidade de jogar por dinheiro está atraindo
muitas pessoas que nunca se interessaram por video games. "Estamos
levando os jogos para a maioridade". Esta citação
de uma notícia
do New York Times que descreve os jogos desta maneira:
As
regras são bem simples: mate e ganhe dinheiro, ou morra
e perca. YouPlayGames dá dinheiro (geralmente menos que
um dólar) para cada morte e cobra da mesma forma [só
um pouco mais] por cada "vida" que um jogador compra. UltimateArena
cobra taxas de entrada para jogos e campeonatos, onde os lutadores
de primeira viagem ganham as fatias maiores de dinheiro (e prêmios
tipo kits de jogos) de uma corrente que pode chegar a US$1.000. "Jogar
no site realmente pode ficar mais excitante quando você ultrapassa
o medo de perder alguns trocados por partida", disse Vadim Zingman,
25, de Trumbull, Connecticut, quando contou que tinha ganho US$1.800
na UltimateArena jogando dez partidas por semana desde que o site
apareceu na última primavera (28 de agosto de 2003).
Os sites
de jogos são criados para evitar os menores de idade, mas todos
reconhecem que as barreiras para a admissão destes são
muito imperfeitas.
Agora,
não tenho nenhuma intenção de subir em um cavalo
de alta moral para denunciar a jogatina. Sei muito bem que jogar parecerá
inócuo para muitos e será debatido e defendido para sempre,
do mesmo modo que os efeitos da televisão sobre as crianças
são. O ponto mais dramático e potencialmente catastrófico
para mim não é o jogo per se mas o fato de que teremos
tão facilmente e casualmente convidado os jovens para o mundo
nesta nova atividade - e nenhuma comunidade real terá feito qualquer
coisa do tipo que era preciso para criar um lugar, as condições,
o envolvimento cultural e o contexto humano para essa atividade acontecer.
Os jovens serão levados de suas comunidades até esta
nova diversão não por causa de uma evolução
coerente e enraizada da sociedade, mas simplesmente porque um mundo
sem palavras está agora ao alcance das pontas de nossos dedos
e alguém sentado em frente a uma tela criou uma combinação
de bits digitais que funciona. A frivolidade de tudo isso - a facilidade
e inconseqüência e desconexão e banalidade e séria
conseqüência cultural - é o que me preocupa. Nos colocamos
em uma situação onde um adolescente, sem nenhum senso
real do que está fazendo, pode a um nível ou outro reprogramar
toda comunidade da nossa sociedade.
Então,
o que estou sugerindo? Apenas que já é hora, finalmente,
de levar em consideração certas verdades há muito
reconhecidas quando realizarmos escolhas pessoais e sociais. Sempre
há vantagens e desvantagens na procura pela eficiência,
e isso implica uma tremenda carga de responsabilidade para quem está
envolvido nesta busca; e, semelhantemente, toda vez que dissolvemos
um lugar em lugar nenhum, também dissolvemos uma quantia imensurável
de capital cultural e social materialmente encarnado.
Quando
levarmos estas verdades a sério, não concluiremos tão
facilmente que "mais eficiente" ou "mais barato"
quer dizer "melhor". Também não acreditaremos
que usar investimentos ou políticas fiscais para encorajar a
rápida adoção de tecnologias de rede é um
bem óbvio e qualificado para a sociedade; nós estaremos
mais inclinados a ver os grandes custos implícitos. E não
rotularemos como "retrógrada" uma escola que opte por
estar fora do currículo baseado nos computadores - especialmente
se esta escola está focalizada em criar lugares vibrantes onde
as crianças possam pertencer.
Mais importante,
poderemos redescobrir dentro de nós mesmos um novo solo onde
a delicada flor do idealismo pode existir. O problema com o idealismo
exagerado da Net dos primeiros tempos foi que ele estava vestido de
poderes redentores da tecnologia. Isto estava fadado ao desapontamento.
Um idealismo puro ganha voz na expressão de nossos próprios
ideais quando encontramos dentro de nós mesmos os recursos para
colocá-los em prática, na Internet e em todos os lugares.
À medida que fazemos isso, podemos esperar descobrir um caminho
entre nossos insatisfações atuais e fazer da Internet
uma expressão valiosa, ainda que presumivelmente limitada, de
uma sociedade saudável. A alternativa é observar a sociedade
tornando-se uma expressão doentia da Internet.
Stephen
L. Talbott
(stevet@oreilly.com)