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vozes da revolução digital

Reflexões sobre os insatisfeitos da Internet
Stephen L. Talbott
Outubro, 2003

NETFUTURE - Technology and Human Responsibility - Issue #150
A Publication of The Nature Institute

Não há muitas pessoas felizes na Internet nos dias de hoje - pelo menos, não muitos idealistas felizes. Vermes e vírus maliciosos, uma maré crescente de spam, capitalismo em suas formas mais cruéis, processos judiciais sobre filtros de Internet em bibliotecas, perguntas aborrecidas sobre privacidade face à vigilância governamental e corporativa, o aparente sucesso dos jogos de azar, pornografia, e todos os esquemas estranhos imagináveis, monopólio de softwares de baixa qualidade, frustrações constantes de empregados que têm de lidar com ferramentas excêntricas e incompreensíveis, terríveis batalhas sobre direitos autorais - nada disto traz conforto à experiência online.



Do mesmo autor:
The Future Does Not Compute (1995)
Transcending the Machines in our Midst
e
Daily Meditations for the Computer-entranced (1996)
e
FAQ on Technology and Human Responsibility (1997)
e
Index of Book Reviews on the NetFuture Theme (2000)

 

Por muito tempo tenho tentado não reclamar das disfunções mais óbvias da sociedade digital. Primeiro porque as disfunções são óbvias e já atraem a atenção de outros. Segundo porque acredito que qualquer disfunção irá, cedo ou tarde, submeter-se à ingenuidade humana. Mais importante, como mencionei há alguns anos, minha real preocupação nesta publicação (NetFuture) são os efeitos da tecnologia quando ela cumpre exatamente o que esperamos dela, aparentemente sem golpe contrário. Esta harmonia superficial esconde um perigo mais profundo, que resulta da nossa vontade demasiadamente passiva de nos adaptar ao "hardware" a nosso redor.

Existe uma linha muito fina entre adaptação saudável de um lado, onde uma ferramenta é criada para servir aos objetivos humanos mais elevados e, do outro, o "tornar-se nativo" (going native) - a hardwerização de nossos próprios hábitos. Na adaptação saudável temos uma certa resistência à ferramenta, mesmo que sutil. Quer dizer, a separação entre a máquina e nós mesmos continua prevalecendo em nossa consciência, ainda que trabalhemos continuamente para transcender essa divisão através da maestria da ferramenta. Sem esta resistência e consciência não podemos realizar o trabalho necessário para permanecer mestres das tecnologias que empregamos. Paradoxalmente: devemos estar cônscios da diferença entre a ferramenta e nós mesmos, de sua oposição a nós, para que eficientemente possamos trabalhar para torná-la "parte de nós". Quando perdemos esta consciência, não podemos dirigir este trabalho nem saber se estamos usando a ferramenta ou ela a nós.

Os deslizes, erros e falhas da tecnologia pelo menos têm a virtude de, vez em quando, nos tirar da conformidade hipnótica à maquinaria e nos trazer à lembrança de nós mesmos como distintos das ferramentas.

Mas me parece, enquanto trato das centenas de spams diários e leio sobre as leis criadas, inutilmente, para acabar com a jogatina na Internet ou prevenir os vários abusos de crianças na Net, que nossas insatisfações atuais refletem muito mais que tropeços inconvenientes na grande marcha para a sociedade da informação. Precisaremos mais do que uma pequena ingenuidade técnica. Isto se deve ao fato de estarmos face a problemas recalcitrantes e fundamentais para os quais talvez não hajam respostas razoáveis, pelo menos não consistentes com nossas altas expectativas de uma vida de assistência tecnológica tranqüila.

Há inúmeras avenidas para se criticar a sociedade da Internet.

Os dois assuntos que quero comentar no momento são tão evidentes, tão claramente aqui na nossa frente que podem facilmente ficar invisíveis. Um deles tem a ver com a Internet ser um meio transacional famoso por sua eficiência. Muitos de vocês irão se recordar que os elogios à eficiência desde o começo têm sido tão extremos, tão inflamados, tão cheios de expectativa revolucionária ("capitalismo sem fricção"!) - e, em seus próprios termos estreitos, tão irrefutávelmente justificados - que deveríamos ficar alarmados.

Não é difícil ver que um movimento direto para a eficiência transacional sempre coloca o significado e o valor das transações em situação de risco.

Não que eficiência e significado sejam brutalmente opostos um ao outro.

Pelo contrário, eles permanecem em uma tensão criativa e necessária. Isto nos previne de mirar apenas na eficiência. Se não temos um objetivo separado da eficiência, não temos como dizer se estamos ou não no caminho certo, e não temos como avaliar a eficiência. Então as questões de eficiência têm de estar sempre ligadas aos nossos objetivos e valores.

Qualquer um que diga "eficiência é tudo" está dizendo "não há objetivos nem valores neste empreendimento (e portanto também não há eficiência relevante)". E qualquer um que tenha objetivos e valores deve reconhecer que eles necessariamente nos afastam da perfeita eficiência. Perfeita eficiência refletiria o fato de não haver resistência a ser superada, nenhum trabalho a ser feito - e portanto nenhuma meta relevante a ser alcançada. Em suma: não podemos alcançar a eficiência se apontarmos para ela, mas se estivermos o mais claramente possível focados em nossas metas. Ao mesmo tempo, tal foco sempre nos levará fazer coisas que parecem ineficientes a uma mentalidade mais estritamente calculadora.

Então tentar ser eficiente é como tentar ser feliz. Se você deseja a felicidade, se desapontará. Mas, se você faz o contrário e assume uma tarefa importante no mundo - uma atividade que certamente o levará a assumir cargas que não te deixarão muito feliz - você ficará surpreso em descobrir certa felicidade no seu esforço, sacrifício e conquista. Da mesma forma, eficiência é uma conseqüência indireta, volátil e nunca absoluta de manter seus olhos em uma meta intrinsecamente relevante que pode demandar "ineficiências" de você.

Em termos mais concretos: qualquer par de amigos ou amantes pode atestar que a busca pela mera eficiência é o caminho mais curto para dissolver um relacionamento humano digno. Se você colocar a eficiência como objetivo as pessoas terão o péssimo hábito de te distrair e ficar no seu caminho.

Isto é redundante. Todos sabem. Todos já sabiam quando a Net estava sendo criada e celebrada por sua eficiência. Porque então os elogios à eficiência não foram contrabalançados mais efetivamente por preocupações com as metas e valores "ineficientes" sendo deixados para trás? Parece que preferimos não ligar alguns pontos.

Dos valores que estão sendo facilmente esquecidos nas eficientes transações através da Net, deixe-me citar apenas um: O valor de deixar seu vizinho em sua relativa paz. O criador de spam poderia não praticar sua atividade tão facilmente entre os vizinhos de seu quarteirão - pelo menos não sem conseqüências desagradáveis e muitos impactos dolorosos sobre qualquer consciência que ele possa ter. Mas dentro da esfera do capitalismo pacífico, onde vizinhos são substituídos por transações, e os custos beiram zero, este é um assunto bem diferente.

O que o psicólogo Adolf Gueggenbuhl-Craig disse a respeito do casamento é verdade para todas as relações humanas. Matrimônio, ele diz,

"...é um caminho especial para descobrir a alma.... Um dos atributos essenciais deste caminho soteriológico é a ausência de vias de escape. Como os eremitas santos não podem se evadir de si mesmos, os casados também não podem evitar seus parceiros. Nesta característica parcialmente tormentosa e parcialmente vantajosa que é a impossibilidade de escapatória está a especificidade deste caminho.
("Marriage, Dead or Alive." Zurich: Spring Publications, 1971 - "Casamento, Morto ou Vivo")

Mais genericamente, é de nossa natureza que ninguém pode evitar ou ignorar uns aos outros. É impossível. Esta verdade é expressada sutilmente em todas as circunstâncias, mas se torna mais óbvia quando encontramos alguém em um lugar que normalmente estaria vazio: não podemos não responder; ignorar é em si mesmo uma resposta viva e negativa. Não há saída senão lidar uns com os outros, que é nosso tormento e também nossa salvação.

Todavia, a eficiência transacional da Net pode ser vista como uma prática do ignorar. Aprendemos a nos conduzir como se não existisse ninguém do outro lado da transação - ninguém que precisemos reconhecer. E, de fato, cada dia mais é uma máquina do outro lado, ou deveria ser. Em vários contextos humanos anteriores não temos outra escolha que não seja adaptar nossas respostas às maquinas que usamos; seria estúpido se fizéssemos de outro jeito.

Redes digitais continuam e acentuam dramaticamente a duradoura mania de perpetuar transações despersonalizadas na sociedade moderna. Não podemos escapar dessa mania num mundo cada vez mais complexo. Mas isso não quer dizer que manejamos essa situação de modo saudável. Tudo depende de nossa habilidade em achar transações cada vez mais profundamente pessoais para contrabalançar as cada vez mais mecanizadas, e assim manter um elo com nossa humanidade.

Posso imaginar três saídas que este esforço encontraria:

(1) Tenho apontado em edições recentes de NetFuture que todo o maquinário da vida moderna, desde sua representação na cultura e nos livros, até o advento do robô Kismet, demonstram tendência em apresentar expressões humanas. Aprender a reconhecer esta expressão em suas várias qualidades através de todas as distintas camadas de mecanismos da tecnologia moderna é um grande treinamento para nós. Mesmo se o que tenhamos que reconhecer seja o perturbador esforço atual em redefinir o ser humano como simples máquina, esta tentativa de redução já é por si só um gesto humano profundamente significativo. Apreendê-lo em todas as suas nuances de expressão de esperança, confusão e dor, irá aprofundar nossa compreensão.

(2) Podemos responder a esta expressão humana mecanicamente imposta procurando elevá-la. Isto pode significar que algumas vezes tenhamos que sabotar o processo de forma a servir às intenções humanas mais elevadas. Aprender o momento certo de violar um procedimento, quando sair do caminho originalmente traçado ou transformá-lo para que sirva a um valor maior, demanda o que há de mais elevado em nós. O hardware ao nosso redor, com todas suas limitações é, neste sentido, o nosso instrutor demandando nossa elevação.

(3) Podemos aproveitar todas as oportunidades para aprofundar nossos compromissos com pessoas, onde quer que tal comprometimento ainda seja possível. Isto não significa necessariamente investir grandes energias para fazer com que encontros online sejam tão intensos quanto possível (embora tal exercício sempre trará bons frutos). Faria mais sentido minimizar os compromissos online em benefício daqueles mais intensos (e mais facilmente negligenciados) relacionamentos no nosso ambiente imediato. De qualquer forma, o importante é alcançar o encontro entre pessoas, em oposição a um tipo de convivência semi-automatizada com meras palavras.

Tais estratégias, acredito, oferecem a resposta mais direta que alguém possa dar a questão, "Como tornar a Net uma parte saudável da sociedade?"

Tudo isso está relacionado com um segundo problema: a habilidade radicalmente limitada do "cenário" digital em produzir comunidades reais. Sendo um meio cultivado por sua eficiência, a Net não possui a maioria das qualidades que dão às pessoas um lugar onde habitar. Ela não incorpora a história ou tradição, não possui este tipo de estabilidade e estrutura social, e não apresenta os contextos culturais e naturais distintos dentro dos quais as pessoas podem trabalhar adequadamente seus destinos profundos entre si.

Novamente, é redundante. Nenhum outro tema foi mais debatido durante a última década do que "espaço real versus espaço cibernético". Já sabemos, ou deveríamos saber, que não há nada no mundo online que possa tomar o lugar do real. As redes digitais não são para isso.

Quando, algumas semanas atrás, um homem da Flórida foi preso por recrutar crianças em larga escala para um site pornô, um advogado dos E.U.A disse, "Poucos de nós poderíamos imaginar que existiria alguém no espaço cibernético trazendo crianças pela mão até os cantos mais doentios da Internet." Pelo contrário, isso era exatamente o imaginado por todo crítico da Net que merecia seu diploma de sociologia no começo dos anos 90 - exceto que não especificado em termos de crianças e cantos doentios. Pelo contrário, tudo foi mantido em um nível limpo, seguro e abstrato: "todo o mundo nas pontas dos dedos". Mas, claro, nas pontas dos dedos das crianças também.

Quão relutantes fomos em ligar os pontos!

Sim, o mundo - o mundo Web, com suas indubitáveis e agora essenciais maravilhas - nas pontas de nossos dedos. Mas estar a um click de distância de todos lugares leva-nos a estar em nenhum lugar em particular, e isso significa que tornar a Internet um lugar saudável para as crianças não é uma meta realisticamente alcançável no presente momento. Não há "lugar" para tornar saudável, nenhum lugar onde as pessoas se relacionam, onde o desenho das casas com seus quartos privados e comuns, o desenho das ruas, a localização dos negócios, escolas, parques, a estrutura construída ao longo de anos dos relacionamentos familiar e comunitário, os ritmos de trabalho, estudo, comércio, jantar, recreação e conversação, a realidade terrena do Sol, brisas, chuva e mosquitos - não há lugar onde estes e outros milhares de fatores podem se juntar para dizer, "Aqui está você. Seu nome está escrito neste lugar. Você pertence aqui, e está seguro."

Lugares reais se tornam seguros e saudáveis por virtude de uma complexidade material infinita do tipo certo. Na Internet, por contraste, somos forçados a proteger as crianças através de ferramentas técnicas inteligentes através das quais podemos realmente fabricar "ruas" e "lares" e "parques". Mas dentro desta esfera técnica, toda ferramenta inteligente funciona primeiramente para chamar uma ainda mais inteligente. Enquanto as reais ruas, vizinhos e olhares atentos não desaparecem quando uns poucos bits são trocados de lugar, os lugares na Internet mudam de fachada instantaneamente.

Assim é o "mundo" para o qual tantos têm desejado transferir os locais de trabalho de nossa sociedade, prefeituras, escolas, clubes de recreação. Não tenho dúvidas de que alguma transferência de funções é inescapável e adequada atualmente. Mas o equivalente a uma louca corrida por terra - neste caso, encorajada pelo governo, com incentivos fiscais, corrida de consumidores para terra nenhuma - será catastrófica, senão por outras, pelo menos pelas duas causas que mencionei: o impacto destrutivo sobre os casos de mecanismos cujas recomendações primordiais são sua eficiência; e a desorientação resultante da perda do lugar real, com seu complexo papel de nos firmar e estruturar nossas vidas.

Lugares reais com suas instituições sociais permitem a incorporação de valores infinitamente variáveis em contextos diferentes - e fazem isso de um jeito que encoraja as pessoas a tomar suas posições de acordo com estes "valores graduais" onde quer que elas se sintam mais confortáveis. Ainda assim todos estes lugares diferentes podem coexistir como parte de uma sociedade maior - uma coexistência que começa com o fato básico de que a terra em si mesma é, no final, uma terra, e tentativas de comprometer esta integridade levam a calamidades ecológicas. Temas como desmatamento e aquecimento global unem Índios Amazônicos e Esquimós do Ártico em uma única comunidade com interesses semelhantes, mesmo que as características diferentes de cada terra tragam culturas radicalmente diferentes. (devo uma apreciação completa deste fato às conversas com David Abram, autor de "The Spell of the Sensuous".)

Em uma paisagem real, há uma diferença entre estar aqui e lá. Isso facilita explicar como o "aqui" pode preservar seu próprio caráter, diferente do "lá". Porque a troca de lugares requer trabalho e uma certa dissipação de energia, um lugar não pode influenciar o outro tão facilmente.

Uma sucessão histórica de tecnologias de comunicação cada vez mais poderosas perturbaram esta delicada trama de valores locais e diversidade global. A Internet promete uma quase perfeita culminação da história. Quando telas são inseridas em inúmeros pontos dentro do padrão cultural diferenciado, tornando-se parte da experiência da maioria dos membros da sociedade, e quando todas essas telas trazem algo e tudo com eficiência indiferente, aí todo modelo ordenado e baseado no local está em risco de uma dissolução caótica.

Quando me referi acima às conseqüências catastróficas da eficiência unilateral e sem-terra, não quis dizer que iremos necessariamente viver eventos amplamente reconhecidos como catastróficos. Tudo o que acontecer será sem dúvida aclamado por muitos como "progresso". Os elementos catastróficos a que me refiro já existem para quem quer ver: por exemplo, a atual revisão científica do homem e do mundo como sendo uma forma de máquina computadora; a inabilidade das crianças, quando crescerem, de viver uma motivação orgânica e profunda de se conectar consigo mesmos e com a sociedade.

Deixe me dar mais um exemplo do que chamo de "catástrofe". Há um novo mundo de pague e jogue na Internet onde os jogadores podem ganhar (ou perder) dinheiro. Chris Grove, diretor da YouPlayGames argumenta que a novidade de jogar por dinheiro está atraindo muitas pessoas que nunca se interessaram por video games. "Estamos levando os jogos para a maioridade". Esta citação de uma notícia do New York Times que descreve os jogos desta maneira:

As regras são bem simples: mate e ganhe dinheiro, ou morra e perca. YouPlayGames dá dinheiro (geralmente menos que um dólar) para cada morte e cobra da mesma forma [só um pouco mais] por cada "vida" que um jogador compra. UltimateArena cobra taxas de entrada para jogos e campeonatos, onde os lutadores de primeira viagem ganham as fatias maiores de dinheiro (e prêmios tipo kits de jogos) de uma corrente que pode chegar a US$1.000. "Jogar no site realmente pode ficar mais excitante quando você ultrapassa o medo de perder alguns trocados por partida", disse Vadim Zingman, 25, de Trumbull, Connecticut, quando contou que tinha ganho US$1.800 na UltimateArena jogando dez partidas por semana desde que o site apareceu na última primavera (28 de agosto de 2003).

Os sites de jogos são criados para evitar os menores de idade, mas todos reconhecem que as barreiras para a admissão destes são muito imperfeitas.

Agora, não tenho nenhuma intenção de subir em um cavalo de alta moral para denunciar a jogatina. Sei muito bem que jogar parecerá inócuo para muitos e será debatido e defendido para sempre, do mesmo modo que os efeitos da televisão sobre as crianças são. O ponto mais dramático e potencialmente catastrófico para mim não é o jogo per se mas o fato de que teremos tão facilmente e casualmente convidado os jovens para o mundo nesta nova atividade - e nenhuma comunidade real terá feito qualquer coisa do tipo que era preciso para criar um lugar, as condições, o envolvimento cultural e o contexto humano para essa atividade acontecer. Os jovens serão levados de suas comunidades até esta nova diversão não por causa de uma evolução coerente e enraizada da sociedade, mas simplesmente porque um mundo sem palavras está agora ao alcance das pontas de nossos dedos e alguém sentado em frente a uma tela criou uma combinação de bits digitais que funciona. A frivolidade de tudo isso - a facilidade e inconseqüência e desconexão e banalidade e séria conseqüência cultural - é o que me preocupa. Nos colocamos em uma situação onde um adolescente, sem nenhum senso real do que está fazendo, pode a um nível ou outro reprogramar toda comunidade da nossa sociedade.

Então, o que estou sugerindo? Apenas que já é hora, finalmente, de levar em consideração certas verdades há muito reconhecidas quando realizarmos escolhas pessoais e sociais. Sempre há vantagens e desvantagens na procura pela eficiência, e isso implica uma tremenda carga de responsabilidade para quem está envolvido nesta busca; e, semelhantemente, toda vez que dissolvemos um lugar em lugar nenhum, também dissolvemos uma quantia imensurável de capital cultural e social materialmente encarnado.

Quando levarmos estas verdades a sério, não concluiremos tão facilmente que "mais eficiente" ou "mais barato" quer dizer "melhor". Também não acreditaremos que usar investimentos ou políticas fiscais para encorajar a rápida adoção de tecnologias de rede é um bem óbvio e qualificado para a sociedade; nós estaremos mais inclinados a ver os grandes custos implícitos. E não rotularemos como "retrógrada" uma escola que opte por estar fora do currículo baseado nos computadores - especialmente se esta escola está focalizada em criar lugares vibrantes onde as crianças possam pertencer.

Mais importante, poderemos redescobrir dentro de nós mesmos um novo solo onde a delicada flor do idealismo pode existir. O problema com o idealismo exagerado da Net dos primeiros tempos foi que ele estava vestido de poderes redentores da tecnologia. Isto estava fadado ao desapontamento. Um idealismo puro ganha voz na expressão de nossos próprios ideais quando encontramos dentro de nós mesmos os recursos para colocá-los em prática, na Internet e em todos os lugares. À medida que fazemos isso, podemos esperar descobrir um caminho entre nossos insatisfações atuais e fazer da Internet uma expressão valiosa, ainda que presumivelmente limitada, de uma sociedade saudável. A alternativa é observar a sociedade tornando-se uma expressão doentia da Internet.

Stephen L. Talbott
(stevet@oreilly.com)