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vozes da revolução digital

Salvando a Rede
Como vencer as argumentações intelectuais e políticas que ameaçam o Linux e a Internet.

por Doc Searls
22/07/2003 in Linux Journal

Ao mesmo tempo em que as restrições sobre concentração de mídia estão sendo removidas, de tal forma que as mesmas três empresas vão ser donas de tudo, também estão desaparecendo restrições de neutralidade da rede, resultando em que as mesmas três empresas - que também irão controlar o acesso em banda larga - ficam totalmente livres para arquitetar a infra-estrutura de acesso da forma que desejarem.


Quem é dono de quê?

Esta é a questão fundamental, e vai se tornar mais fundamental na medida em que nos aproximamos da eleição presidencial aqui nos EUA. Há muita coisa em jogo, incluindo o Linux e seu habitat natural: a Rede. Ambos têm sido extraordinariamente positivos para a economia.

Tanto a Internet quanto o Linux foram criados, cresceram e frutificaram quase que totalmente à parte da esfera regulatória. Ambos são, em sentido literal, produto de mercados livres exercendo suas liberdades.

No entanto existem aqueles que não se importam, e infelizmente são estes que estão manobrando a discussão no momento. Os estúdios de Hollywood possuem advogados e organizações de mídia convencidos de que o compartilhamento de arquivos é "pirataria" e "roubo". Apple, Intel e Microsoft estão fechando acordos secretos com o demônio de Hollywood, amputando (ou concebendo a amputação de) funcionalidades do PC para proteger a propriedade intelectual dos "produtores de conteúdo".

A Internet foi abençoada com a ausência de regulação durante a maior parte de sua curta história. Mas as empresas que provêm a maior parte do serviço de acesso - as teles e as companhias de TV a cabo - são extremamente reguladas. Tais empresas são criaturas que habitam um ambiente regulado que mantém pouca semelhança com um mercado da vida real. Como nativas de habitats regulados, vêem a regulação da Rede como uma atitude de Bom Senso. Afinal, qualquer regulação vai ajudar a determinar a propriedade sobre dimensões da rede hoje servidas por estas empresas, e legitimar as limitações implementadas naquilo que seus clientes podem fazer, na Rede e com a Rede.

Estas empresas mantém profundas alianças com o "cartel do conteúdo": setores que desejam implementar o controle além da Rede, na linha de montagem dos equipamentos que conectam à Rede, incluindo PCs, os quais até agora também têm sido abençoados com ausência de regulação. Proteções de Propriedade Intelectual (PI) vem sendo implementadas em eletrodomésticos há algum tempo. Esta turma não vê nenhuma razão para que os PCs, sendo um formato de equipamento doméstico, deixem de se sujeitar às mesmas restrições, na forma de Gerenciamento de Direitos Autorais (Digital Rights Management - DRM), desenvolvido pelos provedores de conteúdo e "queimado" no hardware ainda em fábrica. Estão contando com as provisões de "anti-circunvenção" do Digital Millennium Copyright Act (DMCA) para barrar qualquer tentativa de hackear estes sistemas de DRM. Uma vez que estes "defeitos" (para os quais existe zero demanda por parte dos clientes) estejam implementados, você pode contar com o aparecimentos de PCs e laptops da Dell, HP e Gateway que serão muito menos adaptados para rodar Linux.

Dois raciocínios se aliaram por caminhos estranhos para prover cobertura intelectual a estas ameaças ao mercado. Um, é o extremo conforto que certos setores sentem no âmbito seguro de seus ambientes regulados. O outro, é o alto reconhecimento que políticos conservadores têm por empresas de sucesso. Combine estas duas mentalidades, e você terá os conservadores recompensando generosamente empresas cujas principais conquistas consistem em uma boa adaptação aos ambientes altamente regulados.

Foi isto o que aconteceu com os setores de mídia (broadcasting) e telecomunicações.

Existe um problema em se conceber os serviços de broadcast - especialmente a variedade comercial - como um mercado. Seus clientes e seus consumidores constituem duas populações diferentes. Os clientes dos serviços de broadcast são os anunciantes, e não os telespectadores ou os ouvintes. De fato, as transmissões comerciais são um negócio publicitário. O "conteúdo" distribuído não passa de isca; os bens vendidos são os olhos e ouvidos dos "consumidores". Como um consumidor da programação comercial, sua influência direta é zero pois isto é exatamente o que você paga. (Contratos para serviço de cabo ou satélite não contam, pois o pagamento é pelo o acesso, e não pelo conteúdo.)

As exceções notáveis são os canais "premium" como HBO e o broadcasting público. A razão pela qual a qualidade da programação em ambos é relativamente maior é simples: existem pouco ou nenhum distanciamento entre clientes e consumidores em seus mercados. Como telespectador ou ouvinte, você recebe aquilo pelo qual você paga.

É por tudo isso que a discussão sobre o "mercado de mídia" está muito equivocada. O relaxamento das regras de propriedade no setor, sem a necessária contrapartida de tornar disponível maiores faixas de espectro para todos, não é desregulação. Trata-se de uma mudança altamente seletiva na regulação existente, que tem por resultado abrir oportunidades somente para empresas de maior sucesso em um mercado completamente fechado.

Está tudo bem se você não liga para televisão e rádio. Mas e se você se importa com a Internet e com o Linux? O que a desregulação da propriedade na mídia tem a ver com estes?

Muito. Os provedores de serviço de Internet que foram pioneiros no fornecimento de acesso nasceram sob uma proteção regulatória temporária, a qual vem sendo sacrificada para dar vantagem às empresas de cabo e às teles. Ironicamente, ambos os setores estão em sérios apuros, em grande parte porque não têm a menor idéia de como lidar com a Internet. A Rede não nasceu no contexto de seus ambientes regulados, e no entanto eles se acham na obrigação de fornecê-la, porque os clientes querem.

O problema da Rede, na perspectiva dos setores de cabo e das teles, é o fato desta ter nascido sem um modelo de negócio. Seus padrões e protocolos não prevêem nenhum regime coercivo para requerer pagamento - nenhuma medição, nenhum nível diferenciado de serviço, nenhuma cobrança por nível de banda utilizado. Pior ainda, foi desenhada como uma sistema ponta-a-ponta, onde todo o poder de criar, distribuir e consumir está localizado nas pontas do sistema, e não no meio. Nesta arquitetura, as partes internas da Internet foram propositalmente mantidas "estúpidas" - e toda a inteligência pertence às pontas. Como um puro sistema ponta-a-ponta, a Rede foi construída para funcionar de forma simétrica. Não foi criada para ser como a TV, com pencas de conteúdo fluindo em apenas uma direção.

A natureza ponta-a-ponta da Rede é um anátema tão poderoso às empresas de cabo e às teles que estas têm tentado de tudo para torná-la tão controlada e assimétrica quanto possível. Querem que a Rede se pareça com a televisão, e em certo grau, conseguiram. A maioria dos clientes de acesso banda larga DSL e cabo não se importam que as velocidades de download sejam maiores que as de upload, que eles não possam operar servidores de suas casas, e que o e-mail disponível para uso tenha ao fim o nome de sua operadora.

E porque não? Estas empresas são donas da Rede, não são? Bem, NÃO. Estas empresas não são donas da Rede - elas apenas provêem o acesso. Tem muita diferença.

A destruição gradual da Rede vem recebendo proteção política de dois fortes sistemas de valor caros ao pensamento conservador. O primeiro valoriza o sucesso, e o outro valoriza a propriedade. Vamos abordar primeiramente o sucesso.

Liberais são constantemente confrontados pela forma como conservadores parecem adorar as grandes corporações (incluindo, é claro, a grande mídia). E a razão é simples: eles adoram os vencedores, literalmente. Eles gostam de recompensar a força e a realização. Odeiam recompensar a fraqueza pela mesma razão que pais não são afeitos a recompensar notas baixas de seus filhos. Isto, mais do que qualquer outra coisa, é o que torna os conservadores tão diferentes dos liberais. Este é o motivo de palavras de ordem do ideário liberal, como "justiça" e "oportunidade" soarem como "unha arranhando quadro negro" para mentes conservadoras. Para conservadores, estas palavras são disfarces para punir os fortes e recompensar os fracos.

George Lakoff explanou em "Moral Politics: What Conservatives Know that Liberals Don't" (University of Chicago Press, 1995), que conservadores consideram "força" um valor moral. O forte é bom. O fraco é mau.

Não podemos mudar os sistemas de valor conservadores. Entretanto podemos mudar a ênfase do que conservamos, e porquê. Esta é a razão pela qual precisamos encontrar soluções para o Problema da Propriedade também.

Tivemos a oportunidade de confrontar este problema de frente e perdemos, com Eldred vs. Ashcroft, um caso que confrontou a legitimidade do Congresso em legislar sobre copyrights. Eldred foi à Suprema Corte no ano passado, acompanhado de perto desde o início por Lawrence Lessig, um professor de direito de Stanford, autor, especialista em direito constitucional e ex-assessor do arqui-conservador juiz Antonin Scalia, da Suprema Corte. Os argumentos foram ouvidos em outubro. Em 15 de janeiro desse ano, os juizes aniquilaram a argumentação de Lessig por 7-2.

Seguiu-se um falatório considerável, e em algum lugar no meio de tudo isso fiz uma postagem ao site do American Open Technology Consortium - AOTC, sugerindo que as razões para a derrota de Eldred teriam mais a ver com questões de linguagem do que com política ou lei:

Eu acredito que Hollywood venceu porque teve êxito em posicionar a discussão sobre copyright no âmbito do tema propriedade. Em outras palavras, eles levaram o mundo a compreender copyright em termos de propriedade. Copyright = propriedade pode não ser exato em sentido legal estrito, mas constituiu-se como "senso comum", mesmo para a Suprema Corte...

Para minha surpresa, o professor Lessig achou minha idéia convincente. Em seu blog, Lessig escreveu:

Doc realizou um diagnóstico brilhante, e absolutamente correto no site da AOTC sobre como perdemos em Eldred. Copyright é entendido como sendo uma forma de propriedade simples. A batalha em Eldred ficou assim soando como uma disputa contra e a favor da propriedade. Em tal escala simples, estava claro como a maioria da Corte iria votar. Não porque sejam conservadores, mas porque são americanos. Temos nesta cultura uma tendência pró-propriedade que torna extremamente difícil para pensarmos criticamente sobre a mais complicada forma de propriedade já criada - o que a maioria chama de "propriedade intelectual". Questionar propriedade em qualquer forma torna-o um comunista, e no entanto é exatamente este nosso problema: deixar claro que somos pró-copyright sem ser extremista para qualquer lado.

Mudar o debate é o principal desafio. Mas em vez de filosofia, perspectiva e pragmática parecem ser o melhor caminho. Construa um domínio público (o site Creative Commons pode auxiliar nesta tarefa), e demonstre às pessoas e às empresas como este reservatório de conteúdo pode ajudá-los.

Concordo que perspectiva e pragmática são o caminho, e penso que o Creative Commons é uma instituição brilhante, que irá mudar o jogo no longo prazo. Mas penso que continuamos perdendo no curto prazo na medida em que copyright (e, em conseqüência, as patentes) sejam percebidas como propriedade simples. Nosso desafio é mudar isto.

Portanto, como podemos tornar a discussão mais simples? Talvez ajude revisitar nossos conceitos originais de propriedade - conceitos estes que os conservadores podem aprovar e promover:

O Dicionário de Leis de Duhaime define propriedade dessa forma:

Propriedade é comumente considerada como sendo uma coisa que pertence a alguém e sobre a qual este tem total controle. Porém, legalmente, é mais propriamente definida como "uma coleção de direitos legais sobre uma coisa". Estes direitos são em geral garantidos totalmente pelo estado ou pelo proprietário contra outros. Foi dito que "propriedade e lei nasceram e vão morrer juntas. Antes das leis serem escritas e cumpridas, a propriedade não tinha nenhuma relevância. Posse era o que importava. Existem várias classificações de propriedade, a mais comum sendo entre propriedade real ou imóvel (terra e edificações), e propriedade móvel (coisas não anexadas à terra como uma bicicleta, um carro ou um martelo) e entre propriedade pública (pertencente ao estado, ou à comunidade) e privada.

Em National Review, John Bloom coloca a mesma idéia dessa forma:

Seja lá quem for que transformou "copy right" em uma só palavra deve ser um advogado. Não dizemos "freespeechright" (direito de livre manifestação), ou "gunright" (direito a andar armado), ou "assemblyright" (direito de assembléia), ou "religionright" (direito à religião).

O resultado é que 99% do público pensa que copyright é algum tipo de documento legal formal. Acham que tem que ir a algum lugar buscá-lo, ou defendê-lo, ou preservá-lo, ou comprá-lo, ou contratar um advogado para garantir que você o detém.

Mas ao contrário, é simplesmente um direito, como todos os nossos outros direitos, e funciona mais ou menos assim: Qualquer um que cria qualquer coisa que nunca foi criada antes tem o exclusivo direito de copiá-la.

Não é a pessoa que registra a coisa na Biblioteca do Congresso. É a pessoa que concretiza a coisa em primeiro lugar. Apenas o ato de criação já dá o pontapé inicial no processo.

Diferentemente de outros direitos, entretanto, este é transferível. Você pode vender o seu copyright, licenciá-lo, doá-lo. O que é mais comum é que você deixe que uma grande empresa - por exemplo, uma editora que publica livros - faça uso do copyright por um período específico de tempo, em troca de dinheiro, e ao final deste período o direito retorna a você.

Outra diferença: este é um direito com um termo específico.

Os Fundadores da Pátria queriam que o termo fosse de 14 anos, com um adicional de 14 anos caso o autor continuasse vivo. Depois de 28 anos, eles consideravam ter havido chance suficiente para se explorar a criação, e agora ela pertenceria a nação como um todo. Dessa forma jamais teríamos um sistema de privilégios hereditários, similar às guildas de gráficos da Inglaterra renascentista, que exerciam controle total sobre o que podia ou não ser impresso, e sobre quem poderia fazer uso de material literário.

Na América, terra das idéias livres, assim como das pessoas livres, isto jamais iria acontecer, eles diziam.

Bem, aconteceu. Aconteceu porque o Congresso vem há anos permitindo que aconteça. Temos agora uma réplica exata da Stationers' Company, que controlou os copyrights britânicos, e seus nomes atuais são Disney, Bertelsmann, e AOL Time Warner. As empresas de mídia, ao reter os copyrights de autores mortos, estão afirmando que os Founding Fathers estavam errados e que devemos voltar ao sistema aristrocrático de propriedade hereditária, concedendo copyrigths perpétuos. Para efetivar este resultado, estas empresas azeitaram as mãos de congressistas na forma de contribuições de campanha - tal estratégia deu ótimo resultado.

A National Review é uma revista conservadora. John Bloom é um colunista conservador. Isto é significativo.

O que precisamos para revitalizar o entendimento sobre propriedade e promover manifestações contra a atuação desastrosa que o Congresso tem realizado no tema?

Penso que precisamos de uma idéia catalisadora. Eu sugiro "Salvando a Rede". Para realizar este salvamento, precisamos considerar a Rede de duas formas:

1. Como um domínio público, e dessa forma
2. Um ambiente natural para mercados

Em outras palavras, precisamos olhar a Rede como um espaço de mercado que tem feito enorme bem, está sob ameaça extrema, e precisa ser salvo.

A Internet provou ser um espaço de mercado para todo o tipo de coisas. Procure por qualquer produto em uma máquina de busca, e você verá mercados livres em funcionamento por toda a parte, com poder aumentando tanto do lado da oferta como do lado da demanda de qualquer categoria que se possa mencionar.

Mercados florescem na Rede ou com o auxílio dela, pelo fato da Rede ser livre. Esta liberdade é garantida pela natureza ponta-a-ponta da Rede, e pelos princípios básicos (NTQ): "Ninguém é dono, Todos podem usá-la, Qualquer um pode melhorá-la".

Isto pode soar comunista para as sensibilidades conservadoras, a menos que se deixe claro que a Rede pertence à classe de coisas (gravidade, o núcleo da Terra, as estrelas, a atmosfera, idéias) que não podem ser possuídas, e que mesmo pensar na hipótese de possuí-la seja ridículo.

Salvar a Rede e os princípios NTQ que a permeiam deveria ser uma preocupação central para todos os tecnólogos, de todas as partes. Os resultados destes princípios libertários implementados incluem o Linux e ainda toda e qualquer idéia que seja boa o suficiente para crescer ao passar de um cérebro a outro, adquirindo valor no decorrer do caminho.

Nossa tarefa é feita sob medida para nós mesmos. Vamos lá.

Additional Resources

Doc Searls is Senior Editor of Linux Journal.

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Nota do Tradutor: Esta versão exclui do texto original algumas referências do autor a situações e fatos localizados e específicos da cultura, da política, e do atual processo eleitoral norte-americano. Os trechos foram eliminados quando não colaboravam diretamente para o aclaramento das idéias apresentadas pelo autor na perspetiva do leitor brasileiro.

Tradução: José Murilo Junior - Pirenópolis, 29/07/03